João Matos

Créditos da imagem: Reprodução – Chris Bierrenbach
“A ficção e a não ficção decidem o destino que se dá à palavra eu”. Essa é uma das frases de abertura da conferência de José Miguel Wisnik proferida ao Instituto Vera Cruz. O autor parte das reflexões de Roland Barthes sobre as diferentes atribuições da palavra “eu” por parte do crítico (que sempre se priva de seu uso) e do ficcionista (que usa da palavra para falar de um outro).
Pensando a ficção como caraterística da literatura, Wisnik realça o fato de que a ficção é o espaço no qual toda primeira pessoa pode ser um outro, afirmando que sem a possibilidade de “outrar-se” oferecida pela ficção, o que se pode compreender no cotidiano como “realidade” entraria em colapso, pois não haveria mediação entre o “eu” dos sujeitos e as representações presentes em suas narrativas. O autor afirma isso considerando que, desde o final do século XX, há uma ascensão global de produções literárias nas quais seus autores estão muito próximos de sua primeira pessoa.
A partir dessa “guinada subjetiva”, formas narrativas exploram o “eu” dos seus autores, valendo-se da autobiografia, do diário, do testemunho e do relato e sugerem a discussão sobre a perda de espaço da ficção na literatura. Nesse contexto, a escrita de si assume um papel especial por propor mudanças no modo de escrita do “eu” e também na própria ideia do que consideramos literário.
Seria possível ler em um tipo específico de obra, em primeira pessoa e de cunho autobiográfico, uma tensão com a ficção? Que deslocamentos tais obras estabelecem em relação ao que entendemos por autobiográfico e por ficcional? Essas interrogações norteiam minha pesquisa de mestrado, na qual investigo uma possível vertente da escrita de si em que a centralidade da primeira pessoa autoral é deslocada para narrar um outro, geralmente um ente familiar.
Para esse estudo, serão investigadas duas publicações recentes da produção literária brasileira: Triste não é ao certo a palavra, de Gabriel Abreu e A água é uma máquina do tempo de Aline Motta.
O romance de estreia de Gabriel Abreu, publicado em 2023, tem uma clara proposta: contar a história de vida de uma pessoa que não pode contá-la. A motivação da escrita do romance é a descoberta, por parte do escritor, do conteúdo de uma caixa escondida na casa de seus pais, onde estavam um diário, centenas de fotografias e sessenta e oito cartas pertencentes a sua mãe, que passou por um processo de demência antes de falecer. Ficção e o documento se combinam numa exposição da vida compartilhada entre o autor e sua mãe. Em paralelo ao relato do adoecimento de sua mãe, é possível acompanhar a investigação do narrador sobre as histórias não contadas, sobre sua própria identidade.
Publicado em 2022, A água é uma máquina do tempo de Aline Motta, usa o documento para recompor a vida de sua tataravó. Reproduzindo anúncios de jornais sobre sua morte, a transcrição da certidão de óbito e mapas da cidade do Rio de Janeiro, Motta combina a poesia ao documento, resgata uma história de família, pessoal, e também coletiva, flertando com a ficção de Machado de Assis e o silenciamento da história sobre os sujeitos negros.
Ambas as obras falam em primeira pessoa, com uma perspectiva muito pessoal sobre pessoas que compõem o espaço biográfico dos narradores/autores e se valem de documentos para resgatar uma memória. Essa recuperação biográfica se expande para um escrutínio da própria identidade daquele que narra e se expande para uma perspectiva de alteridade. Pensando tanto na noção de “práticas inespecíficas”, como na conversa entre os procedimentos que resultam em formas que são e não são ficção, os dois livros são exemplos para aprofundar a discussão sobre as transformações da escrita de si e da literatura no presente.