João Matos
Créditos da imagem: Levi Fanan/ Fundação Bienal de São Paulo
Embora a escrita de si não seja nenhuma novidade, tendo em vista que a escrita de uma primeira pessoa autobiográfica através de gêneros textuais como a autobiografia, a confissão, o diário íntimo, consolidados no século XVIII, a expansão da presença de formas narrativas que se relacionam com “eu” dos seus autores é a causa do temor de uma parcela da crítica pelo fim da ficção. Cito, como exemplo, José Miguel Wisnik, que chama a atenção para o cenário de crescimento de escritas mais interessadas no “papo reto” que na elaboração da ficção.
Assim é possível pensar que a “guinada subjetiva”, como a crítica argentina Beatriz Sarlo caracteriza as narrativas de testemunho que ganham proeminência nos anos 90 do século XX, e o retorno dos sujeitos autores também dentro de suas produções resultam no movimento de afastamento da ficção, já que a condição de existência da literatura na modernidade associava o literário à ficção, o que significava a primazia da invenção e a transformação da referencialidade. Mas será que esse é o fim da literatura ou é uma modificação do entendimento daquilo que pode ser tomado como literário?
Talvez o caminho mais interessante seja apostar em um campo expandido da literatura, assim como fez Luciene Azevedo. Em Literatura expandida: autoficção, Azevedo passeia por críticos, tão diferentes como David Shields e Tzvetan Todorov, que alertavam sobre o fim da literatura, para propor reflexões sobre as condições que favorecem a ideia de literatura expandida, que a autora entende como uma modificação rumo a outros valores e outras formas do que pode ser tido como literário.
Azevedo observa que, na cena literária contemporânea, muitos livros publicados “acolhem calorosamente o gênero (auto)biográfico e, ainda assim, parecem negociar uma acomodação no terreno da ficção”. Vejo aí, no centro desse impasse crítico, sobre o fim ou a transformação da literatura, a possibilidade de pensar também num movimento não de saída, mas de expansão do conceito de ficção – entendendo “expansão” como transformação de valores e formas.
Penso nessa possibilidade a partir de um dos meus objetos de investigação, o livro A água é uma máquina do tempo, de Aline Motta. Interessada no trabalho com o arquivo, em forma material ou fabulada, Motta publicou esse livro como produto de uma longa pesquisa sobre os documentos que contam a memória íntima de sua família. Em sua escrita, Motta fala em primeira pessoa, com uma perspectiva muito pessoal sobre pessoas que compõem seu espaço biográfico, deslocando a centralidade referencial da narrativa de si e turvando as fronteiras da autobiografia e da ficção.
Um aspecto destacável na escrita de Motta é a forma como os documentos são selecionados e expostos junto às suas poesias e aos seus relatos na composição dessa narrativa. Os versos da artista-escritora assumem um papel mediador da experiência de leitura do arquivo, o que dialoga com o uso que Motta dá ao mesmo texto do livro em uma performance apresentada por ela em diversas cidades do Brasil e do exterior.
O deslocamento desse mesmo texto para diferentes suportes e formas de arte – do livro para a dramatização da leitura, da exposição para a performance – é interessante pois sugere uma forma de ficção que se propõe a dar forma narrativa a objetos incomuns à habitual prática literária, como a imagem e o documento.
Paralelo a isso, nota-se o crescente uso do rótulo da ficção em escritas de cunho autobiográfico e memorialístico, ainda que essas mesmas escritas não ofereçam aproximação evidente com a ficção. O que parece é que essa apropriação tem a ver com a estabilidade e o prestígio do termo “ficção” historicamente.
Azevedo refletiu sobre o uso da literatura num campo expandido das narrativas contemporâneas, indicando que o literário caminha para uma redefinição das suas formas e do seu próprio sentido. A meu ver, essa reflexão envolve o deslocamento da ideia de literatura associada à ficção, pois assim se tornaria possível ler outros objetos que (ainda?) não são propriamente “literatura”.