15

Nov23

Elsa Filipe

A palavra "secreto" despertou logo aquela vontade de espreitar, própria de quem é uma pessoa curiosa. O Estado do Vaticano, a sua história e a forma como a Igreja católica tem influenciado a História da Humanidade é um tema do meu interesse. E porquê? Um dos fatores que me leva a esse interesse é compreender os acontecimentos históricos à luz da época e dos conhecimentos da época em que ocorreram. É muito mais difícil falar sobre algo que não compreendemos. Outra das razões, é querer entender o motivo de tanta gente continuar a seguir os dogmas que estão envoltos em tantos segredos e que pedem para que se acredite e confie sem questionar. Ora eu sou uma questionadora! 

O livro de Sérgio Pereira Couto é um resumo daquilo que podemos encontrar nos arquivos secretos do Vaticano e começa desde logo por nos explicar o que são, para que servem e como funcionam esses arquivos. 

Recuando a 1610, Sérgio Pereira Couto, explica que ali ficava guardado um exemplar dos livros que eram proibidos pela igreja. Quem não tinha conhecimentos, não poderia questionar o que era dito - e ainda hoje assim é - e preservavam-se assim milhões de registos que ao virem a público poriam certamente em causa os líderes eclesiásticos. Lembremo-nos do que acontecia com quem levantava a voz contra a igreja durante a Idade Média. 

Neste livro, é levantado um pouco do véu... e a parte negativa é que me deixou com uma curiosidade ainda maior. Alguns detalhes contidos nos milhões de livros sobre a Inquisição, sobre os Descobrimentos ou tantos outros assuntos, viriam a mudar o conhecimento que temos atualmente da História da Humanidade. De facto, nos seus 85 quilómetros de prateleiras, estão hermeticamente guardados "cerca de 800 anos de história". Em geral, tal como é referido no livro, "só volvidos pelo menos 75 anos, a contar da sua publicação, uma parte do acervo se pode tornar acessível."

No livro, entre outros temas, o autor faz uma comparação entre as Biblías Hebraica, protestante e católica, colocando em análise as suas semelhanças e diferenças. Fala também dos textos apócrifos (muitos dos quais terão feito parte da Bíblia católica e sido eliminados ao longo dos "sucessivos concílios". Vários dos Evangelhos apócrifos apenas chegaram ao nosso conhecimento por estarem referidos noutros documentos, uma vez que propositadamente, por acidente ou pelo tempo, se traão perdido para sempre (ou poderão ainda existir cópias dentro deste arquivo que ainda não tenham sido dadas a conhecer). Mas, se existirem, sendo que as regras ditam que podem ser conhecidos após 75 anos e tendo já sido obviamente ultrapassado esse tempo, porque não estão já acessíveis a quem os queira consultar? Em fevereiro de 2006, descreve o autor, foi "revelado ao público" o chamado "Evangelho Perdido de Judas Iscariotes" do qual faz uma análise mais aprofundada. "Datado de meados do século II, a sua autoria é atribuída a seguidores gnósticos." Um dos problemas que o autor levanta está relacionado com a tradução deste tipo de documentos, levando-nos a questionar tal como ele se o que chegou até nós será uma versão próxima dos originais, ou algo totalmente diferente - tendo em conta que os originais estariam escritos em línguas hoje "perdidas" ou "mortas".

Um dos casos mais atuais e cujos registos poderão estar arquivados neste espaço, é o da pedofilia. Os relatos que vieram a "lume" na imprensa, terá sido apenas uma ponta de um enorme véu que esconde muitos outros casos que terão eventualmente ficado registados, mas que, de acordo com as regras de funcionamento do arquivo, só serão trazidas ao conhecimento de todos daqui a muitos anos. Ou seja, quando os culpados e as vítimas já tiverem desaparecido. E aqui se vê o enorme poder que a Igreja Católica ainda tem, uma vez que não há forma de se entrar e pesquisar, descobrir, analisar e encontrar a verdade.

Outro dos assuntos que Sérgio Pereira Couto refere, entre os vários que vai abordando ao longo do seu livro, é se o terceiro segredo de Fátima (revelado por iniciativa de João Paulo II) corresponderá de facto à "verdade" ou se esta ainda estará escondida "com as sete chaves atribuídas a Pedro."

Numa análise final, este livro levanta muitas questões mas, devido a todo o secretismo que envolve este acervo, estes vão, certamente, continuar sem resposta durante muitos anos.