Depois da última postagem no blog, hoje eu queria escrever sobre assuntos alegres. Talvez contar as minhas impressões sobre um filme ou sobre algum seriado (estou com vários débitos). Ou falar de literatura. Ou abordar outro assunto. Qualquer um.
Mas a realidade acabou comigo. No dia 26 de janeiro de 2013, um incêndio matou mais de 200 jovens na boate KISS em Santa Maria, RS. E eu, que não costumo ficar sensibilizado com tragédias, considerando-as como parte deste ônus de estar vivo e ser parte de uma Humanidade que se retorce por todos os lugares – por conseguinte, um mundo onde tragédias são inevitáveis, pois como podemos deslizar sem nos bater de vez em quando? – subitamente me vi desprovido de palavras. Elas desapareceram. Todas. Ao mesmo tempo.
Junto com o sumiço das palavras, também veio a pergunta inevitável: do que elas valem em um mundo cheio de desgraças? Um texto meu impedirá uma tragédia? Um conto pode salvar uma vida? Para que escrever se tudo é loucura e desespero, desilusão e abismo? Nenhuma palavra é capaz de dar conta da dor. Não existe nada que uma palavra possa fazer para acalmar alguém, para apagar o passado, para salvar de uma recordação. Palavras são inúteis. E ridículas. Vivemos uma ilusão de que elas podem fazer tudo e, na realidade, é no silêncio que a verdade se manifesta, mostrando a nossa fragilidade e a nossa empáfia. Somos poeira que fala, e só isto. Pretensões cheias de justificativas e desculpas.

Menos mal que não fui o único a experimentar o silêncio interno e a sensação de que as palavras eram insuficientes e inúteis. A Carol Bensimon também passou por esta experiência e relatou em um texto, que também considero um retorno pesaado à vida inocente que nos foi roubada: http://www.blogdacompanhia.com.br/2013/01/no-final-de-um-corredor-sonolento/
Com o passar dos dias, as palavras estão voltando. Receosas, titubeantes, um pouco desconfiadas, mas pedindo para voltarem ao mundo. Ao contrário dos mortos de Santa Maria, nós continuamos. E persistimos com somente a palavra para espalhar a sua memória e dor pelo mundo. Não temos onde nos refugiar. Somos criaturas cheias de palavras. Gostemos ou não, precisamos gritar para todo mundo aquilo que também não sabemos expressar direito.
Mas não se preocupem: não vou desonrar a memória dos mortos com insuficientes palavras, com declarações de impacto, com a pretensão de efeitos estilísticos. Tudo seria em vão. E estranhamente vazio neste mundo em que, de repente, todo mundo se descobriu poeta e com vontade de fazer declarações constrangedoras sobre o indescritível. Poucas horas após a tragédia começar a se desenhar, dezenas de textos passaram a assolar a internet, cada um tentando ser mais criativo, mais original, mais compungido do que o outro. Todos insuficientes. Não há palavras. Simplesmente não há.
Os antigos tinha suas maneiras de lidar com a dor. Depois da batalha de Salamina, em que perdeu grande parte do seu prodigioso exército, o imperador Xerxes mandou chicotear o mar, culpando-o pela sua desgraça. Ele precisava extravasar a sua raiva pela morte inútil do seu exército, precisava expiar a culpa que lhe corroía como um verme traiçoeiro. Culpou o mar e, como se fazia a um escravo desobediente, mandou açoitá-lo.
Contam que, após perder três legiões romanas na Batalha da Floresta de Teutoburgo, o imperador Augusto passou várias noites insone, com pesadelos que lhe atormentavam. Seus criados relataram que, por algumas semanas, ele foi visto caminhando pelos corredores do palácio, gritando “Quintili Vare, legiones redde!” (‘Quintilius Varus, devolva minhas legiões!’) enquanto batia a cabeça nas paredes. Ele precisava pedir desculpas para as dezenas de vidas que mandou para a morte, ele precisava do perdão.
São duas formas de lidar com o luto. Podem parecer estúpidas diante dos nossos olhos pós modernos, mas demonstram a angústia de quem viu uma tragédia se desenhar e não sabe como sobreviver a ela da mesma forma. E tudo ficou diferente. Estamos mais desconfiados. Estamos mais tristes. As palavras voltaram, mas perderam um pouco da inocência. Elas também se tornaram mortais. Lembro da triste lição do Padre Antônio Vieira sobre a nossa efemeridade: “A vida é uma lâmpada acesa; vidro e fogo. Vidro, que com um assopro se faz; fogo, que com um assopro se apaga.” Ele também dizia que a vida não é nada, uma poeira no Universo. Talvez realmente não seja nada. Mas, se assim for, por que dói tanto?
E tudo que eu gostaria era de bater a cabeça em uma parede e suplicar para que me devolvam as 235 vidas que o incêndio apagou do mundo. Ou que existisse um mar que eu pudesse chicotear. Mas até isto a modernidade roubou: o direito de fazer uma atitude insensata para pedir o impossível.
Continuarei perseguindo as escorreitas palavras. Tudo está igual, tudo está diferente.

Publicado por Gustavo
Advogado, escritor e mestre em Letras - mas não nesta ordem. Autor de "O homem despedaçado", livro de contos lançado pela Dublinense em 2011. Ver todos os posts de Gustavo