ULTIMO CAPITULO 


Hoje acordei cedo, nervoso, inquieto. Aquela encomenda com certeza iria mudar o resto da minha vida. A Olga foi mesmo direta: fazes esta tarefa ou nunca mais voltarás a ver-me. Tem que ser, não tenho alternativa. A minha úlcera continua a doer, se continuo assim terei que ir ao hospital tratar dela. Se calhar tanto leite pode fazer mal. Os humanos somos os únicos animais do universo que continuamos a tomar leite na idade adulta. Ainda bem! Também somos os únicos seres vivos que não permitimos o assasinato. Isto já não é tão bom. É o meu trabalho, por tanto um trabalho ilícito. Mas preciso acabar com isto. Escolhi uma música apropriada para o momento, Gustav Mahler, Adagietto da Sinfonia nº5. Ao escutar os primeiros compassos já sabia que estava a finalizar uma vida obscura e começar uma nova etapa. Aliás aquela organização precisava da minha mão direita e dos meus serviços. Não sabia muito deles, normalmente reuniam-se uma vez por mês, teria tempo para preparar os meus trabalhos, a minha mão direita estava ansiosa de atividade intensa. Antes de sair de casa avancei um bocado na minha leitura das últimas semanas, Joseph Conrad, Coração das Trevas. Um autêntico e profundo estudo sobre as origens do ser humano e a sua vocação destrutiva. Mas eu queria sair. Eu queria acabar com a minha destruição moral e começar a olhar novos horizontes. Era isso ou não voltar a ver a Olga, claro. Aliás ela disse que ia ser uma atividade muito terapêutica, desde a primeira sessão teria uma nova visão da vida, teria ilusão, futuro. Meditado nestes pormenores e a fazer um balanço da minha derradeira existência cheguei à porta da organização. Era mesmo a hora combinada, onze horas, a palavra passe era mesmo sugerente: microfilme. Subi as escadas, abri a porta, estavam todos à minha espera, foi muito bem acolhido, não esperava menos da minha primeira sessão de "terapia": um clube de leitura... à volta da mesa.

P.Maynard