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Dez22
Maria do Rosário Pedreira
Quando comecei a trabalhar na edição, em finais dos anos oitenta, não organizávamos muitos lançamentos, até porque publicávamos sobretudo autores estrangeiros e não era ainda costume convidá-los para virem apresentar os seus livros em Portugal. Mas, sempre que acontecia, os jornalistas e críticos apareciam em massa, além dos amigos e de muitos leitores curiosos. Lembro-me de um lançamento de João de Melo no andar de baixo da Livraria Barata (talvez o de Gente Feliz com Lágrimas) e do de um livro de poesia de Nuno Júdice no jardim do Museu de Arte Antiga (já não sei que livro era, só sei que era da Quetzal de Maria da Piedade Ferreira) que estavam a rebentar pelas costuras, e foram muitos assim nessa década e na seguinte. Quando comecei a trabalhar com autores portugueses, as sessões de apresentação multiplicaram-se; além do lançamento na cidade natal dos autores, havia pedidos de todo o lado para que fossem falar dos seus livros. Mas, de repente, faz-se hoje um lançamento de um romance escrito por um autor que até tem bastantes leitores e está tudo meio às moscas no dia da apresentação, faça chuva ou faça sol: vai a família, vão os amigos mais próximos, e, se estiver lá um jornalista, é porque esteve a entrevistar o escritor antes do evento e ficou para assistir. Que estranho... Foi a pandemia que nos viciou no recolhimento, ou é o excessivo recurso às plataformas digitais para tudo e mais alguma coisa que nos viciou na solidão?