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Mai24

Maria do Rosário Pedreira

Arranjaram-me há uns anos um portátil que é mesmo uma desgraça. Primeiro, por causa do álcool-gel durante a pandemia, apagaram-se simplesmente as letras mais usadas das teclas pretas: primeiro o A, depois o E; tive de as substituir por etiquetas circulares autocolantes com o desenho das vogais feito por mim, regularmente substituídas elas próprias porque o papel se desfaz com o tempo e fica tudo nojento. Enquanto começavam a desaparecer também o O e o S (e a tecla da vírgula ficou igual à do ponto), as teclas começaram a saltar e tive mesmo de pedir ajuda aos informáticos. Lá deram um jeito com uma chavinha e aparafusaram o A e o E, mas pouco depois o O saltou, só que, como estava a acabar um trabalho urgente e tinha dois emails a que tinha de dar resposta imediata, resolvi tentar usar palavras que não tivessem O para não ter de sair da sala com o portátil ao colo e ir lá abaixo pedir a uma alma caridosa que me aparafuse a tecla desavinda. E, juro, foi mesmo uma «ginástica mental» (expressão que não tem O), mas consegui praticamente não usar a vogal problemática do meu teclado. Fiquei contente por descobrir que conheço muitos sinónimos e tenho um léxico bastante alargado para estas emergências (ler traz muitas vantagens). Se assim não fosse, não iria conseguir responder tão depressa a um email assim urgente. Mas, ufa, nem imagino o que foi para Georges Perec escrever todo um livro sem a letra E... Sim, e outras maluquices.