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Mai24
Maria do Rosário Pedreira
Como provavalmente a maioria dos portugueses, conheci a escrita de Michael Cunningham, romancista norte-americano, através de As Horas, um livro bastante particular dividido em três partes que foi vencedor do Pulitzer Prize, no qual acabaria por basear-se um filme com o mesmo nome e actores famosíssimos como Meryl Streep, Julian Moore, Nicole Kidman e o maravilhoso Ed Harris, que desempenha o papel de um doente com SIDA. Lembro-me de ter gostado muito de ler o romance, mas nunca mais tinha tocado em nada de Cunningham e agora comprei Dia, que saiu há pouco tempo cá em Portugal. Também este romance tem três partes, cada uma dedicada ao mesmo dia (5 de Abril) em três anos distintos: um antes, outro durante e o último no final da pandemia que assolou o mundo e infelizmente, antes da vacinação em massa, levou muitas pessoas que conhecíamos (e que desconhecíamos). Esse é também um dos factos de Dia (a capa merecia ser menos xaroposa...) que, embora não seja comparável a As Horas, tem pormenores muito interessantes e originais, entre os quais a forma como dois irmãos adultos resolvem criar a personagem de um irmão mais velho que é tudo o que ela e ele ambicionariam ser (com perfil no Instagram alimentado diariamente e tudo!) e também a relação sempre ambígua entre dois cunhados que estão há séculos apaixonados pela figura um do outro, mesmo se um deles é heterossexual. Se já sabíamos como a pandemia mudou decisivamente a nossa vida, este é um bom livro para que nunca o esqueçamos. E também a história de uma família tocada por um inescapável infortúnio.