O mistério da fogueira (parte 1)
ficção, narrativa, literatura contemporânea, conto
Albert Bierstadt/Wikimedia Commons Atravessei o arco do dragão com receio. Por onde passávamos o papel descascado das paredes estreitas e o chão de carpete imundo eram iluminados por uma longa fila de pequenas lâmpadas amarelas André Vieira Inventava desculpas por inventar. Rolava os olhos. Ruminava o chiclete. Dizia absurdos a mim mesmo pra continuar naquilo ao lado dele. Dali a pouco a noite cairia em numa pequena casa que dobrava a esquina; meu pai sempre dizia que é quando falta luz que a gente aprende a ter medo do escuro: sempre o ignorei. Mas agora, por algum motivo que me não vem à cabeça, peguei na mão do Josiel e perguntei que que era aquilo na frente. O malandro me fitou irritado, largou de mim numa levantada de braços e disparou um mau-olhado que secava até banana queimada; fazer o que: tinha medo do escuro e de rua vazia. A casa em questão era de chá. De ladrilhos quebrados e porcelana escurecida pela falta de reparos. De cortinas pesadas de veludo vermelho sangue e salas vazias de fumaça pesada, víamos e ouvíamos o estrondo seco e ruidoso que vinha de dentro, aparando desde a porta de carmesim de entrada. Dei uma longa e duas rápidas, como mandam os ritos dos iniciados. Josiel me olhava com uma atenção desinteressada, como se aquele fosse mais um dia qualquer numa visitada sem graça; mas pra mim aquele seria o princípio. Não demorou pra uma mulher de argolas e balangandãs vir à porta com a melodia nos lábios: — “Trouxe?” — “Sim!”, respondi de pronto enquanto tirava a mochila das costas e punha no asfalto pra mostrar o chamado. — “Pode deixar aí, vamos entrar antes”, respondeu baixinho enquanto unia os lábios pra beijar o cigarro. — “Certo”, respondi seco olhando pro meu colega que só tinha olhos pro vulto da porta. Atravessei o arco do dragão com receio. Por onde passávamos o papel descascado das paredes estreitas e o chão de carpete imundo eram iluminados por uma longa fila de pequenas lâmpadas amarelas, sim aquelas que tiram a vontade de continuar vivo no momento que as encara por muito tempo à procura de respostas. Conforme mais penetrávamos, mais o labirinto se encurtava e se afunilava até chegarmos a uma pequena porta, não maior do que sete palmos que indicava o fim do corredor e começo da jornada. Respirei fundo, mas seus ombros eram tolhidos pela robustez das paredes mofadas e frio do mofo-vivo. — “vamos vê-lo então”, disse a mulher com uma voz séria e um semblante convidativo. — “Tá certo, deixa eu voltar um pouquinho então pra eu poder tirar a costas”, disse numa voz que mostrava certa confiança, sobretudo a mim mesmo. Josiel me olhava com um sorriso de soslaio, enquanto andava de marcha ré até um lugar menos estreito daquele corredor diminuto. Publicado por André Vieira Jornalista gaiato e poeta-menor. Escrevo pequenas notas e algumas reportagens quando a missão vem à baila e engano — bem — na arte milenar do hai-cai fixo. Não gosto que cebolas toquem no purê de batatas. E sim, amigos, é bolacha e não bixxcoito. Ver todos os posts de André Vieira
Texto originalmente publicado em Revista Fina