Albert Bierstadt/Wikimedia Commons

Em alguns passos no capim macio e encontraria o foco de minhas esperanças. Em um terreno baldio, de planície aberta

André Vieira

Já com o suor na testa e os olhos irritados por aquela poeira que corroía as córneas, pude tirar o peso das costas e olhar de novo para aquela mochila verde-escura, arruinada pelos anos e por Polar que teimava de afiar as garras finas naquele couro vagabundo de feira barata. Mirava com os olhos vermelhos o fecho entreaberto destruído pelo gato e precisando reparos. De súbito, ao tocar no zíper que só descia, me veio o pânico. Um calafrio subia a espinha enquanto escutava berros distantes dos dois que tinham ficado na frente.

Minhas mãos  sacodiam as pernas que bambeavam os dentes que debatiam os nervos que estimavam a fina lágrima escorrida pelo semblante empolado. Num surto de adrenalina inesperado, recoloquei a mochila nas costas e disparei até a porta onde as paredes não sufocavam. Derrubei quadros, descasquei pinturas, chutei móveis e desci lamparinas enquanto traçava minha rota de fuga daquilo. Apanhei a chave da parte de dentro da casa e num gesto rápido, de três ou quatro movimentos, os tranquei para sempre naquele lar em cacos destinado a dois. Pálido e ofegante, atirei a mochila das costas que encontrou no asfalto frio.

— “Mas o que foi aquilo”?, perguntava-me a mim mesmo enquanto recostava, exausto, a cabeça na porta e me perdia em pensamentos velozes e sentimentos sem nome enquanto a lua decrescia em minha frente.

 A pouco desperto com um fino apito vindo de longe. Esfrego as mãos contra pálpebras inchadas e vejo um fio de luz branca seduzindo o olhar. O feixe incandescente me reanima as esperanças esvaídas e o cansaço extremo prostrado na porta da casa de chá. Me levanto bêbado com os braços dormentes e as espaldas moídas; puxo com muito esforço o saco dos mistérios e o recoloco nas costas rumo àquilo que preenche o vazio do meu ser, às palavras e aos sentimentos vazios que me reconduziriam naquela noite e naquele momento.

Em alguns passos no capim macio e encontraria o foco de minhas esperanças. Em um terreno baldio, de planície aberta, sem árvores ou arbustos, lagos ou lagunas via um pequeno ciclo de pedras desértico que se fechavam em torno de uma pira fabulosa, cuja labaredas frias e opulentas, reconfortavam a alma daquele viajante perdido ou deste transeunte confuso, imerso em seu próprio desconforto. Mal iluminadas, bem polidas e alinhadas, as pedras me lembravam de um colar de conchas que tivera na infância, na amizade que mo fazia transportar e nos laços que fincaram raízes no passado distante. Entrei na roda e tirei suavemente a mochila das costas, enquanto cruzava as pernas e me sentava para admirar o calor das chamas azuis, fechando-os devagarinho enquanto me deixava ser consumido pela fúria da madeira. Num assobio curto do vento, senti a cabeleira da grama me roçar os dedos. A princípio, relutei em me reabrir ao mundo, porque estava gostoso e o sol da noite me fazia mais bem do que o astro do dia, mas deixando a teimosia de lado descerrei-os mirando os gravetos e os carvão deixados pela fogueira. 

—“Tá há muito tempo aqui?”, senti um bafo rouco vindo em minha direção. 

Já arregalados, posicionei os olhos pra cima e à meia-luz vi um velho, trajando em frangalhos os trapos do que um dia foi uniforme do oficial ou traje de segurança. Com um chapéu coco sorado que não indicava proveniência militar e botas bem lustradas, estas sim de aviador ou praça, suas palavras retilíneas indicavam que viria algo curioso pela frente, desde sua boca convexa, protegida por uma barbada espessa e suas sobrancelhas em ângulo obtuso: mas, assim como eu, ele permaneceu silente. O que pareceria estranho para momento, eu não tinha medo. Embora sua presença tenha me assustado a princípio e seu cheiro forte me dado um pouco de enjoo; contudo, não o vira como uma ameaça a mim nem a pira que consumia a terra. Ainda com o estômago meio embrulhado, entoei: 

— “Não muito. Mas deixa eu perguntar: quem é você?”, quase me faltou o ar para dizer aquelas palavras. O velho começou a balbuciar alguns sons inteligíveis, quase como em outras línguas, e introduziu sua trova sem muito entusiasmo:

—“Faz tempo que não tenho nome. Desde que abandonei a pátria e desertei a família, o que me resta agora é vergonha. Talvez um pouco de rum ou uma garrafa esquecida de tequila. Mas engarrafar a felicidade é coisa pra poeta ou bêbado. Pra nós, filhos da vida de nossas mães e desafetos de nossos pais, ser feliz é costurar em si mesmo o tracejado torto das linhas das mãos. É se fazer valer daquilo que não sabe para desvendar o mistério da vida; é aprender consigo mesmo o que foi amar.” Não entendi bem o que ele queria dizer com tudo aquilo. Me agarrei as palavras, mas a ideia de colocar tanta coisa junto, família, pátria, amor ainda não ficara clara: faltava alguma coisa dentro de mim que pudesse traduzir aqueles dizeres cegos, de marujo bêbado, em luz de fogueira. Tomei alguns instantes vidrado no meu breu particular, formulando uma resposta justa para todas aquelas questões. Obviamente, desisti em menos de cinco minutos e perguntei, na cara de pau mesmo, virando meu rosto para o semblante arrasado do marujo:

—“Por quê? Por que é preciso amar a si mesmo?”, no momento que tornei o rosto à sua cara, o velho tinha desaparecido. Puto e frustrado, continuei, incansavelmente, a ressoar aquela dúvida aos quatros ventos: 

—“Por quê? Por que é preciso amar a si mesmo?”;

—“Por quê? Por que é preciso amar a si mesmo?”;

—“Por quê? Por que é preciso amar a si mesmo?”;

—“Por quê? Por que é preciso amar a si mesmo?”.

Na gita de meus gritos desgrenhados, reavistei a luz da lua que vira em meu descanso sobre a porta da casa de chá. Reparei que estava diferente de antes, que sua forma incompleta, minguante, tinha se preenchido por completo, como nos versos dos antes do verão. Mas não era amarela, azul, branca ou qualquer outra das cores de que se fala quando se ama ou se está apaixonado por alguém: era lua vermelho sangue. Tomado por um impulso de violência, cessei a gralha e me concentrei a fitar o astro. A sentir seu calor longínquo, seu brilhar ávido sanguíneo que faziam suas calotas nuas, seus buracos fundos, seus sulcos densos realçarem os ímpetos assíduos de violência e morte.

Repousei a cabeça sobre a mochila e me pus ao lado das labaredas azuis do medo, pelo pouco calor que me afastava do frio e da fogueira prestes a se apagar em sua pilha de carvões negros. Despertei ainda sob as estrelas. E ainda atordoado, lembro de Josiel e da mulher de argolas largas deixados pra trás na casa de chá. Me levanto com a mochila nos ombros e me arrasto vagaroso à porta carmesim que dara início a esta história. Giro a chave contra a fechadura e, de uma só vez, a porta arrota dois corpos inertes sobre o solário. Por algum motivo, só desperto pra vida quando vejo seus braços sem vida e suas cabeças vazias se debatem na calcada. Não sentiria angústia, medo ou apreensão, apenas rezaria calado dentro de mim uma cerimônia fúnebre de despedida.  Me certifico por seus pulsos e pescoços que a linha vital tinha sido atravessada. Pairo sobre seus corpos os restos que habitavam minhas costas. Amarro a chave da porta junto ao molho que escondera no zíper travado. Empurro com força o que habita o chão: devolvo com ímpeto àquilo que se deve ao seu lugar inicial.

Nascer da aurora. Tudo se fora; exceto a vontade de ser. 

Junto ao molho uma saudade imensa do amigo do colar de pérolas.

Coloco sobre o pescoço um penduricalho de mágoas.

Volto pra casa pela estrada que vim e por onde comecei.

Exceto pela vontade de ser.