Por José Reinaldo do Nascimento Filho

(Paris, 08h25, 20 de dezembro de 1995)

Os irmãos, como eram conhecidos entre os agentes da Corporação, repetiram para si mesmos que nada mais havia a fazer. A plena certeza de que a missão havia sido coreografada com maestria dava-lhes garantia do sucesso iminente. Sobre a operação daquela manhã eles impuseram toda a disciplina e técnicas aprendidas na academia; sendo, todavia, o maior trunfo de ambos, a convicção de que “Ele nunca soube e nunca saberá que foi o nosso maior inimigo”.

Reynaud conhecia a base inimiga tão bem quanto qualquer parisiense; não era para menos, ele próprio havia sido criado e treinado entre os inimigos. Nenhum outro poderia substituí-lo: Reynaud conhecia aquelas portas desgastadas; as janelas quebradas, os corredores úmidos, os quartos escuros, e, principalmente, as entradas secretas. Mas não era ele quem realmente efetivaria a operação; a parte prática, pura e simples, seria executada pelo seu irmão mais novo, Edward. A função de Reynaud era a de, justamente, do seu esconderijo no Pé-de-Chuchu, direcionar, com a ajuda de sofisticados Oktoks, os iniciais passos do irmão à entrada da base.

Finalmente, já no esconderijo, que ficava a poucos quilômetros do alvo, exigira, do seu irmão, a execução de rigorosos ensaios antes do início da operação. Reynaud era o mais exigente entre os chefes de espionagem que a Corporação já enviara contra seu grande inimigo, o RES. Há nove anos dirigindo a Divisão Dononas/Nordeste, ele já deixara a sua marca. Apesar da já lendária atenção aos detalhes na atividade de espionagem, alguns críticos o consideravam um homem limitado de QI reduzido, pois sua dedicação, quase jesuítica ao trabalho, estava restritamente relacionada ao seu julgamento sobre aquilo que lhe cativava ou não. Em outras palavras: ele só fazia bem o serviço quando o achava realmente importante para ele. Reynaud era um homem complexo e de uma inteligência diferente, que despertava emoções confusas naqueles que trabalhavam com e para ele. Situação oposta ao que ocorria ao apaixonante Edward. Rude e às vezes estúpido, aquele jovem “alto, forte e bonitão”, como gostava de dizer, possuía a incrível capacidade de se adequar a todo tipo de situação. Sempre sereno e frio, e por isso mesmo sempre feliz em todos os testes pelos quais concorreu, Edward era a pessoa mais indicada para a missão que estava por vir.

Normalmente, quando uma operação tão importante era executada no seio da bela Paris, em meio à vigilância do RES, a Corporação ficava sabendo do resultado somente na manhã seguinte. Todos confiavam em Reynaud; este, por sua vez, confiava em seu irmão. No entanto, apesar das certezas, todos eles tinham consciência das dificuldades daquela operação, e nunca vendavam os olhos para um possível fracasso.

O Sucesso levava algum tempo para filtrar-se no sistema, não obstante o aviso de fracasso ser quase imediato, e vir na maioria das vezes, num telegrama simples que parecia apostar corrida com o sol. O primeiro sinal poderia vir da esposa, ou da mãe, avisando que o seu marido ou filho não havia chegado para o jantar. Reynaud aos poucos foi compreendendo que aquela demora do seu agente só poderia significar uma coisa: o seu irmão tinha sido capturado. E quando esse pensamento vinha à mente do experiente Reynaud, o impacto parecia de um tiro direto na cabeça.

Longos quinze anos se passaram desde aquele cinzento 20 de dezembro de 1995, e não houve um por de sol desde então que tenha se passado em branco, sem que na memória do veterano Reynaud venha à tona a lembrança daquela fracassada missão tão bem arquitetada por ele: o seu irmão havia caído em uma emboscada ao percorrer o trajeto que ele planejara tão cuidadosamente. Nada foi encontrado sobre Edward – verdade que ainda alimenta a esperança no coração daquele cabeçudo agente.

Às vezes um lapso, uma frase pela metade, um olhar, um cheiro, uma música, do mais complexo ao mais efêmero detalhe, o faz lembrar aqueles emocionantes momentos de “brincadeira” entre irmãos. Mesmo que, depois de tantos anos, agora muito mais velho, tudo aquilo pareça pertencer somente à história e a sua memória de criança. As coisas poderiam ter sido diferentes se ele não tivesse esquecido os detalhes: Sempre há mais um quarto a ser visitado.

Ele sempre soube Reynaud, e agora, mais do que nunca, que sempre foi o nosso maior inimigo

Edward, 25 de dezembro de 1995

A mensagem que se seguiu foi deixada na residência do aposentado Reynaud pouco depois das quinze horas do dia 20 de dezembro de 2010 e é responsável pela história que você leitor acabou de ler.