Por Vinícius Pereira Reis Barbosa
Capítulo IV
Na ocasião do encontro, André, ao mesmo tempo em que não sabia o que sentir, sabia também que não podia dar nenhuma brecha que levasse o irmão a contar para a mãe onde ele estava àquela hora da noite. Mas mesmo assim, e o próprio André estava ciente disso, Rafael era do tipo imprevisível, daqueles que sempre guardam uma surpresinha para o irmão mais novo:
– Tenho que tentar parecer tranqüilo, senão ele conta tudo pra minha mãe, ai meu Deus! – Pensou ele.
Mas, naquela hora só vinha na cabeça dele a triste lembrança do desaparecimento do amigo, Ítalo, e da misteriosa “lenda dos umbuzeiros”, que apesar de não saber ao certo de que se tratava, metia o maior medo, principalmente depois de ele já ter adentrado naquela casa aparentemente assombrada.
– Já sei! – André falou consigo, habilidoso nas desculpas como era.
– É que… É que eu estou indo fazer um trabalho da escola que é para entregar na segunda-feira – Ainda um pouco nervoso, disse André ao irmão.
– Mas que trabalho é esse que tem que vir pro meio da estrada a essa hora da noite? – Rafael replicou, notando também que André estava meio inseguro com as palavras.
– É um trabalho de história. Nós temos que falar sobre os povoados do nosso estado e aproveitamos esse, pois conhecemos o atalho. – André exalou um leve suspiro de alívio ao se justificar.
– Nós, quem? – Indagou Rafael, levantando a voz num tom de soberba característico.
– Eu e Ítalo. Eu dei uma parada para comer e ele foi na frente.
Apesar de ouvir as respostas de André, Rafael notava que elas eram meio vagas e que não justificava completamente a sua saída de casa para aquele lugar sem iluminação e tenebroso: Por que André não acompanhou o amigo, preferindo ficar naquele local. E se ele estava mesmo com fome, por que Ítalo não esperou.
– Eu to achando que você ta é escondendo alguma coisa de mim.
– Que nada Rafael, você acha que eu iria esconder essas coisas de você – respondeu André com uma ironia um tanto insegura. Aproveitando também para observar um fusca cheio de adolescentes que estava chamando a sua atenção não muito longe dali.
Nesse momento, houve em Rafael uma indiscreta mudança no seu semblante, como se ele também estivesse escondendo algo do irmão. Mas, mesmo sabendo que aquele jeito de falar não era natural de André, Rafael acabou cedendo e deixando André ir. Visto que ele também estava longe de casa acompanhando uns amigos da sua turma na escola, que a essa altura já estavam a sua procura, pois ainda teriam que ir numa famosa lanchonete que ficava logo na entrada de Lagoa: Coco e Cia.
– Está bem. Mas vê se não deixa nossa mãe preocupada e volta logo pra casa! – Disse Rafael, despedindo-se de André e indo em direção ao fusca.
– Certo!
Após o dialogo, André não conseguia descrever o alívio de ter despistado o irmão, mas não podia deixar pensar no fato de que Rafael era uma pessoa de atitudes inesperadas e que ele não iria deixar escapar essa chance de aprontar mais uma com o irmão mais novo. Lembrava das ocasiões em que acordava muitas vezes com os sustos que Rafael dava e das outras inúmeras em que o irmão mais velho tirava o sarro da cara dele na frente de Ítalo e dos amigos. E o pior de tudo é que se Ítalo estivesse lá, dava para os dois irem de carona para Lagoa: desculpa era o que com certeza não faltava.
Junto também à decepção de ter perdido de vista o amigo, estava a preocupação em recuperar aquele livro polêmico antes mesmo que aquelas meninas passem na casa da tal professora Márcia para pegá-lo. Durante um instante, André se deu conta da situação em que se encontrava e começou a chorar. Naquele momento, as tantas coisas importavam para ele o fizeram lembrar de que tudo surgiu da grande vontade de ler e de conhecer a biblioteca do coronel Otávio, só que se utilizando da mentira para fazê-lo.
Enquanto tudo parecia perdido para André, logo perto dali, uma luz se acendeu na casa obscura que ele havia estado momentos antes, quando estava em busca de Ítalo.
– Mas como, se não havia ninguém naquela casa agora a pouco!?
André, naquele momento, viu que não tinha mais nada a perder e foi espionar a casa de perto para ver quem estava lá, imaginando que alguém deveria ter chegado durante a sua conversa com Rafael.
Chegando lá, ouvia vozes que lhe eram familiar, o que serviu ainda mais para atiçar a sua curiosidade e mais do que nunca as suas únicas esperanças.
– É melhor a gente esperar por ele aqui mesmo, professora.
– Mas essa voz é a de Ítalo! – Pensou André, entusiasmado.
Sem conseguir conter a sua alegria, André foi logo adentrando a casa até então abandonada.
– Ítalo!!!
– André!!!
Os dois se abraçaram eufóricos e uma lágrima sutilmente correu pelo rosto de André. Nenhum dos dois economizou palavras de desabafo e preocupação naquele momento.
Instantes depois:
– Quem é esta mulher, Ítalo? Não me lembro de ter tido ela como professora – Perguntou André, não escondendo a sua inocente admiração por aquela mulher tão bonita e aparentemente simpática.
– Ah! André! Quase me esqueço de apresentar a amiga da minha mãe: Profª Márcia. E esta casa aqui é dela, além de outra que fica lá em Lagoa.
– Mas esta não é a professora que aquelas duas meninas falavam em visitar?
– É sim! Quando a gente se separou eu consegui avistá-la chegando na casa, aí reconheci logo. Daí pedi a ela para me ajudar a te procurar, pois sozinho eu não ia de jeito nenhum, ainda mais a pé. A propósito, você viu uns umbuzeiros que havia aqui perto?
– Aham! Vi sim. – Respondeu André rindo-se por dentro – Mas onde você estava esse tempo todo?
– Então André, a professora vem aqui nessa casa muitas vezes, e conhecia essas redondezas, portanto sabia os locais do atalho onde a gente podia te procurar. Mas, por fim, acabamos decidindo ficar te esperando aqui.
– Realmente, esse caminho que vocês pegaram é um pouco traiçoeiro, principalmente à noite. Ainda bem que vez por outra eu venho aqui nessa antiga casa da minha falecida avó verificar se tudo está ok. Que sorte em meninos! – Disse a professora, sorridente.
– E a senhora ensina lá em Lagoa? – Perguntou André sem conseguir acreditar na incrível coincidência.
– Isso mesmo! O nome é Colégio Lagoense Tancredo Neves – Respondeu a professora, com certo ar de orgulho.
E então André e Ítalo se entreolharam, como se tivessem tido a mesma idéia, e começaram e conversar com a professora Márcia. Mas apesar da alegria do momento, havia algo que André não conseguia parar de se perguntar: Quem será que furou a bicicleta de Ítalo? Será que o coronel já descobriu a ausência do livro?
Pensando nisso, André deixou os dois, alegando que ia ver da onde vinha um estranho ruído que vinha do matagal que cercava a casa.
– Puxa como você é corajoso André! – Exclamou Ítalo.
Ao chegar lá, lembrou-se da carta que ainda estava em seu bolso e começou a lê-la.