CAPÍTULO II

Por Maria Andréa Souza de Andrade Nascimento

Por alguns instantes André continuou chorando. Seu amigo Ítalo, que o procurava, aproximou-se e tentou consolá-lo.

– André, é melhor agirmos logo, antes que anoiteça.

– É mesmo. Já está tarde, não podemos perder tempo. Ítalo, tem um porém: precisamos pensar como vamos para o povoado, porque o ultimo ônibus para lá saiu tem mais ou menos 20 minutos.

– Só se formos de bicicleta. Será que tem algum caminho mais rápido, para chegarmos mais cedo?

– Ahhh! Já sei! – disse André – Vamos pela estrada do rio Tarimbe. É uma estrada de chão e que não tem muita movimentação de carros, assim não ficaríamos tão expostos.

O único problema desse atalho, pensava André, era que na metade do caminho havia alguns umbuzeiros que, segundo uma lenda corrente entre os habitantes do povoado Lagoa, esconderiam muitos segredos. Sem falar que eram bem assustadores. Sabedor da falta de bravura de seu amigo, André preferiu não mencionar esse fato.

Os dois saíram depressa para pegar as bicicletas em suas casas, e aproveitaram para avisarem as suas mães que iriam fazer um trabalho da escola. André avisaria que iria dormir na casa de Ítalo. Este, por sua vez, diria a sua mãe que iria dormir na casa de André.

Enquanto se dirigia até a sua casa para buscar a sua bicicleta, André não parava de pensar um só instante nas últimas palavras do coronel quando o deixou só na biblioteca: “se eu notar que um livro desapareceu…”.

Ao chegar à sua casa, André percebeu que a viagem seria longa e cansativa, e que precisaria levar alguma coisa para comer no caminho. Escondido de sua mãe, pegou sua mochila da escola e colocou alguns pães, além de água e um pouco de leite.

Ao se encontrarem, já perto da saída da cidade, André não poderia estar mais nervoso:

-Vamos Ítalo! Estamos perdendo tempo demais, o ônibus já deve estar quase chegando à Escola de Lagoa, e temos que resolver esse problema logo.

Apressadamente começaram a sua viagem para a casa da avó de André. Antes da saída da cidade algumas pessoas, inclusive o irmão mais velho de André, ficaram olhando, achando estranho dois meninos com mochilas nas costas e de bicicleta indo em direção a outra cidade. André percebeu tudo isso e só imaginava que, naquela altura, alguém já poderia estar sabendo de alguma coisa, inclusive o coronel.

– Vamos acelerar Ítalo, que as coisas não estão ficando nada bem para o meu lado.

Depois de um bom tempo pedalando, os dois já cansados – tinham andado cerca de dez quilômetros – pararam para comer pão com mortadela e um pouco de leite, embaixo de uma árvore. Eles comiam bem rápido, temendo que alguém pudesse desconfiar de alguma coisa ou até mesmo que algum capanga do coronel passasse por ali. André temia especialmente Isaías. A lembrança daquele homem e da sua mão fez André comer ainda mais depressa… Os dois viajantes voltaram novamente à sua jornada árdua, e finalmente lembraram-se de discutir que história inventariam:

– Ítalo, precisamos pensar em como chegarmos à casa da vovó, no que vamos falar – André não tinha costume de frequentar a casa de sua avó. Normalmente, quando a sua mãe ia aos finais de semana, ele sempre arranjava uma desculpa para ficar em casa, lendo – Precisamos bolar alguma maneira para que ela também não desconfie de absolutamente nada.

Tiveram então a idéia de falar para ela que a mãe de André estava doente e por isso não poderia vir, mas pediu que eles viessem saber se a avó estava melhor da gripe que havia tido na semana anterior. A mãe de André ia todos os finais de semana para casa da sua mãe, mas nesta semana especificamente, ela só iria no domingo à tarde, o que daria tempo suficiente para que André resolvesse tudo. Continuaram o caminho alegres e sorridentes pensando eles que todos os problemas já estariam resolvidos.

Algumas horas depois, já à noite, e bem perto do povoado, pararam para descansar um pouco, quando tiveram um grande susto. Duas meninas passaram por eles conversando:

– Soube que a escola vai receber na segunda-feira doações de livros?

– Sim, menina. Na verdade, eles chegaram hoje mesmo, no ônibus que vem pegar as crianças. A Professora Márcia parece que guardou os livros na Secretaria da Escola, e vai distribuir só segunda.

– O que é que você acha de nós irmos falar amanhã com a Profª. Márcia para ela nos emprestar logo um livro, pra gente já começar a ler? – disse, empolgada, uma das meninas.

– É mesmo! – respondeu a outra, sem conter a alegria – Do jeito que a professora gosta de incentivar todos os alunos a ler, acho que ela aceitaria o nosso pedido. A gente podia passar ainda hoje na casa dela!

A esta altura, elas já haviam se distanciado e eles não conseguiram ouvir mais nada. Mas foi suficiente para saberem que teriam que procurar o livro ainda naquele dia, pois se esperassem pelo sábado já poderia ser tarde demais.