Por José Leonardo Ribeiro Nascimento
– É MEU! DEIXE AÍ!!!
– DEIXE EU BRINCAR!! ME EMPRESTE!!
– NÃO!! GUARDE NA CAIXA. É SÓ PRA VER. VOCÊ VAI QUEBRAR!!!
As duas crianças pareciam prontas para se engalfinhar, tamanha a revolta de uma perante o comportamento da outra. Para uma, a ideia de se ter um brinquedo que não servia para brincar parecia absurda. Para a outra, a ousadia de seu primo de querer brincar com o dragão que nem mesmo ele se atrevia a usar, era inconcebível. Antes, porém, que passassem para um nível mais físico na sua contenda, a porta do quarto se abriu, e os dois se voltaram, assustados, para a figura que apareceu:
– Que bagunça é essa? Parem de brigar os dois agora mesmo! Por que essa confusão toda?
– É ele, que não quer me dar o Dragão Diamante para eu brincar! E ele nem estava brincando!
– Ele vai quebrar! Ele nunca tem cuidado com as coisas! E eu só tenho um Dragão Ancião. Ele é muito raro. Eu nunca nem brinco com ele!
– De que adianta ter um brinquedo com o qual você nem brinca, meu filho? Se você não o usa, o melhor é darmos esse Dragão para alguém que o use – e André já foi pegando o Dragão Diamante das mãos do seu filho. Em relação aos valores, ele era bastante rígido. Para ele era fundamental que Tiago crescesse sem apego a bens materiais e com um forte senso de generosidade, mesmo que, para isso, ele tivesse que tomar decisões duras como essa.
– NÃO! Ele é meu, pai, eu gosto dele!
– Por que você gosta dele?
– Porque ele é um Dragão Ancião, e é bonito… – a voz de Tiago já começava a ficar embargada. O pequeno sabia que seu pai realmente pretendia tirar-lhe o brinquedo.
– O único motivo justificável para se gostar de um brinquedo é o prazer que ele lhe proporciona por meio das brincadeiras. Um brinquedo que só serve para ficar dentro de uma caixa não pode, de maneira alguma, lhe suscitar afeto, Tiago.
– Mas…
– Outra coisa: eu não admito que se tenha tanto apreço por um objeto. Lembra o que a gente sempre fazia com os brinquedos que você não usava mais, quando você era menor? – aquele “fazia” cortou o coração de André. Ele reconhecia, em seu íntimo, que tinha abandonado aquela boa prática, e essa sua omissão certamente havia contribuído para que agora seu filho pensasse daquela maneira.
– A gente dava aos meninos que não podiam comprar…
– E lembra como era na escola quando você era menorzinho? Todos os coleguinhas levavam os brinquedos para a escola e um brincava com o brinquedo do outro? Será que você esqueceu tudo isso?
– Não… – e as lágrimas de Tiago rolavam devagar, apesar de todo o seu esforço para contê-las.
– Então, meu filho. Como é que seu primo vem passar as férias aqui, para brincar com você, e você não quer deixar que ele brinque com seus brinquedos? Vocês não gostam tanto um do outro?
– Gosto… e… – a voz de Tiago não saía mais. O choro era de arrependimento e de vergonha de seu primo, que presenciava todo aquele sermão.
André pegou seu filho e colocou-o no colo. Mesmo aos dez anos, ele ainda era o seu bebê, e lhe provocava certa satisfação o fato de que seus sermões ainda surtiam efeito. Ele o abraçou e continuou, agora num tom ainda mais tenro:
– Filhinho, brinquedos foram feitos para brincar. O que a gente tem que guardar no coração são as pessoas. A amizade do seu primo vale um número sem fim de Dragões, sejam eles de Diamante, Platina, do Gelo ou do Fogo. Vou contar uma história de quando eu era pequeno, de uma aventura que eu vivi e que serviu exatamente para que uma pessoa aprendesse tudo isso.
– Lembra daquela história da biblioteca, que eu sempre conto?
– Claro, né, pai. Toda semana você conta. Só o Vítor já deve ter ouvido umas cem vezes, né, Vítor?
– Por aí.
Os três riram, o que era um bom sinal.
***
Pouco tempo depois daquilo, houve uma gincana na escola. Eu havia passado uns meses bem quietinho, controlando a minha curiosidade. Limitava-me a ler os livros da Biblioteca Municipal e a imaginar histórias. Eu nem estava interessado em participar da gincana. Tinha medo de que alguma tarefa envolvesse qualquer atividade que me colocasse próximo da casa do Coronel. Mas dois “problemas” contribuíram para que eu participasse: O primeiro foi Ítalo, que ficou no mesmo grupo que eu no sorteio. O segundo… Bem, o segundo foi Mônica, uma linda menina por quem eu nutria uma admiração secreta. Ela acabou ficando no mesmo grupo também.
Nem comecem a rir, que eu nem sonhava em namorar naquela época. Não é como hoje. Eu simplesmente achava o máximo poder dividir o mesmo espaço físico que ela, fazer alguma tarefa ao seu lado, quem sabe trocar algumas palavras, talvez impressioná-la com algum feito… Vocês já podem ver que minha vaidade começou a falar mais alto. Eu era muito tímido quando se tratava de meninas, e eu achava o jeito recatado e tímido da Mônica simplesmente irresistível, mas nunca havia sequer chegado a conversar com ela. Essa gincana seria uma oportunidade única de ela me notar, já que muitos dos temas eram literários, e eu, modéstia à parte, lia como ninguém na escola.
O que importa é que eu acabei aceitando ficar no grupo. Além de nós três, havia mais cinco meninas e quatro meninos. Eu aguardava ansioso a distribuição das tarefas, sonhando que eu e Mônica ficássemos com alguma sob nossa responsabilidade. As tarefas vieram, e, para a minha tristeza, a grande maioria era relativa a trabalhos manuais, para os quais eu realmente não tinha habilidade. Ítalo, nessa área, era o melhor, pois desenhava muito bem. Algumas atividades com as quais eu poderia ficar foram logo escolhidas por outros meninos, que sempre tinham um primo, um tio ou um avô que os ajudassem a encontrar uma moeda antiga, uma flor rara, ou que tocasse um instrumento musical exótico.
Quando foram ler a última tarefa, minha frustração era aparente, pois até aquele momento não havia uma única atividade que eu, e só eu pudesse executar. Mas aí Mônica leu o último desafio, e, instantaneamente, todos olharam para mim. Sabiam que eu era o mais indicado para cumpri-lo. O desafio era o seguinte:
“Conseguir um livro antigo e em bom estado para ser doado à Biblioteca Municipal, com identificação do doador. Ganha quem conseguir o livro mais antigo e em melhor estado.”
Eu tinha lido todos os romances da Biblioteca Municipal e já havia pelo menos segurado nas mãos todos os outros livros. Não saberia dizer a relação completa de livros de lá, mas se alguém me perguntasse por um título, eu saberia dizer, com absoluta certeza, se ele constava ou não no acervo. Além desse fato, minha curiosidade era conhecida de muitos no colégio, motivo que os levava a crer que eu realmente poderia encontrar, em algum lugar, um livro bem antigo.
Obviamente fui aclamado para essa tarefa, que valia o dobro de pontos das outras. Para que minha felicidade não fosse completa, Mônica não ficaria comigo.
– Você poderia pedir ao Coronel Otávio Assunção, André – sugeriu Moinho, que na verdade se chamava Antonio. Pelo seu sorriso, parecia que ele sabia de algo sobre o incidente. Instintivamente, olhei para Ítalo, que apenas baixou a cabeça.
– Ele só costuma doar livros mais recentes ou que já estejam em péssimo estado de conservação. Não se preocupem que eu vou encontrar o livro mais antigo que existir nessa cidade. Esses vinte pontos já são nossos – e sorri meio amarelo. Em meu íntimo, eu tinha o propósito de fazer daquela a tarefa mais importante de toda a gincana. Haveria de realmente encontrar um livro antigo para ser doado, só não fazia ideia de onde começar a procurar.
Terminada a reunião, eu e Ítalo saímos, a caminho de nossas casas. Ítalo se apressou a perguntar:
– Você não vai de novo à biblioteca do Coronel, não é, André?
– Você está maluco? Não pisaria lá nem se a atividade valesse dez mil pontos!
O semblante de Ítalo ficou visivelmente mais tranquilo. Eu sabia que meu amigo não aguentaria tanta tensão outra vez. Acabamos por decidir perguntar aos nossos pais onde poderíamos encontrar livros antigos na cidade, apesar de eu, particularmente, não imaginar que meu pai pudesse saber mais de livros do que eu próprio. Dá pra ver como muitas vezes somos estúpidos, subestimando a sabedoria dos mais velhos e superestimando o nosso próprio conhecimento. Como disse certa vez Oscar Wilde, “não sou jovem o suficiente para saber de tudo”.
***
– O que, pai?
– Depois eu explico. Deixe-me continuar a história.
***
Cheguei em casa e fui logo falando com meus pais da gincana, dando destaque especial para a minha tarefa, que expliquei ser a mais importante de toda a competição, o que não deixava de ser verdade. Meu pai, no mesmo instante que falei do livro antigo, lembrou-me logo de Seu Genário de Dodó, um senhor bastante idoso, com fama de excêntrico, que morava no povoado Lagoa. Ele tinha mais de noventa anos e ainda trabalhava todos os dias na roça. Possuía um sítio repleto de pés de laranja, manga, jaboticaba, tangerina, acerola e diversas outras frutas. A maioria se perdia, pois ele vivia sozinho e ele não permitia que ninguém fosse lá colher qualquer fruto. Além disso, era conhecido por ser colecionador de velharias. Na verdade, não era bem colecionador. Ele simplesmente guardava tudo. Não conseguia se desfazer de nenhum objeto. Contavam que ele tinha tudo que havia sido de seu pai e tudo que ele, desde a infância, ou seja, desde o início do século, tinha comprado ou ganhado. Pouca gente o visitava, mas aqueles que o haviam feito falavam que a casa era completamente tomada por objetos: quadros, panelas, sofás, cadeiras, rádios, e, claro, livros. Os muitos quartos da casa viviam trancados, mas supunha-se que estivessem repletos de ainda mais velharias. Era considerado por todos como o sujeito mais avarento de toda a cidade. Meu pai não tinha dúvidas de que ele possuía diversos livros antigos. O que ele duvidava realmente é que o velho pudesse doar algum dos seus bens, já que ele era apegado até a uma jaboticaba que se perdia no seu sítio.
Toda aquela descrição havia despertado em mim, depois de todos aqueles meses, a velha curiosidade. Por mim, partia para a casa do seu Genário naquele mesmo instante. Falando com meu pai, ele disse que eu até poderia tentar. Se eu quisesse, ele me levaria até o sítio, mas não iria falar com o velho, até porque ele já sabia que aquele avarento nunca doaria um botão para ninguém, quanto mais um livro antigo e em bom estado.
Era o que eu precisava ouvir: um desafio lançado pelo meu próprio pai. Combinei com ele de, no dia seguinte, ir visitar o sítio e tentar conversar com seu Genário. Toda aquela noite passei imaginando toda sorte de diálogos: imaginava ser bem recebido, e sair rapidinho com um livro; considerando que essa era uma remotíssima possibilidade, imaginava que ele nem iria me receber, e que eu teria que me provar valoroso o suficiente para que ele me ouvisse; imaginava-o irredutível quanto à doação e tentava elaborar hipóteses para abrandar seu coração. Aí me veio um estalo: eu precisaria chegar lá com um plano bem elaborado, e para isso tinha que saber exatamente com quem estava lidando. Ele certamente tinha algum motivo para ser tão avarento, tão apegado a seus bens, e, se sua casa tinha muitos quartos, é porque ele teve filhos. Se teve filhos, hoje já teria netos e, talvez, bisnetos. Logo, sua família deveria ser grande, mas não andava lá, já que as frutas se perdiam todos os anos, como seu pai lhe disse. Eu precisaria descobrir o motivo de eles não o visitarem e arranjar um meio de tocar o coração do avarento para que ele resolvesse me doar um livro. Foi com esse raciocínio que resolvi, no dia seguinte, ir não à casa do avarento, mas até a casa da minha avó, que também morava no povoado Lagoa. Com ela conversei bastante, tentando descobrir a história de seu Genário. O que a minha avó sabia era que ele havia sido muito pobre, e que, depois que seu pai sofrera um acidente, ele sustentou seus pais por toda a vida, desde os doze anos de idade. Ele tinha um grande amigo, mas aconteceu algum desentendimento entre eles muito tempo atrás, e esse amigo também vivia no povoado Lagoa. Era bastante velhinho também, e praticamente já não saía de casa. Imediatamente pedi informações sobre como chegar até a casa de seu Inácio, e, ainda naquela manhã fui até lá. A minha avó tentou de toda maneira me convencer a não mexer com essas coisas antigas, mas minha curiosidade estava no nível máximo, e minha sede por aventuras já não me deixava parar.
Fui até lá decidido a ter uma conversa séria com seu Inácio, e passar toda aquela história a limpo. Fui recebido por dona Aninha, sua esposa, que, naturalmente, ficou surpresa com a visita de um garoto desconhecido a seu velho marido. Após me apresentar como neto de dona Soledade, ela logo mudou de expressão, informando-me que era muito amiga de minha avó e que havia visto minha mãe crescer. Muito doce e educada, ela me adiantou que seu marido estava muito doente e que praticamente não conseguia falar. Eu disse que gostaria de conversar com ele, fazer algumas perguntas, mas que a maioria das respostas seria bem curta. Disse se tratar de um trabalho da escola, e ela logo me levou até o quarto.
Seu Inácio apenas olhava para o telhado, com uma expressão que me deixou inquieto. Parecia apenas esperar a morte. Para um menino, aquilo era realmente assustador. Além disso, seu rosto incrivelmente magro, o cheiro de mofo misturado ao de remédios, a falta de luminosidade do ambiente e aquele rádio bem baixinho, apenas emitindo um chiado, sem que fosse possível distinguir qualquer voz, compunham um cenário deprimente.
– Ele gosta de ouvir o rádio para lembrar-se dos tempos passados – apressou-se a dizer dona Aninha – Mas como as emissoras de hoje não tocam mais as músicas que ele gostava, para ele basta que deixe o rádio assim, sem estar sintonizado em emissora alguma.
Pedi que ela me apresentasse e ela me deixou lá sozinho com ele. Sua voz saía com dificuldade, mas era bem inteligível. Além disso, colaborava muito com o diálogo o fato de sua audição ainda ser muito boa.
Comecei dizendo que era um estudante e que iria participar de uma gincana. Falei bastante da minha família, do meu gosto pela leitura, da minha curiosidade, e vi que ele foi se interessando por tudo aquilo. Imagino que receber uma visita como aquela fosse bastante raro, e ele queira aproveitar para se atualizar. Perguntou-me como era o ensino atualmente, de que eu gostava de brincar, quem era o prefeito, o presidente, que país estava em guerra naquele momento. Percebi o quanto era importante saber das coisas, estar atento a tudo, pois ia respondendo e conquistando-o. Quando dei por mim, a dona Aninha já estava trazendo o almoço do seu Inácio, e me chamou para almoçar com ela. Aceitei e almocei rápido, ansioso para retomar a animada conversa com meu novo amigo.
Na volta, ele parecia outro. Esforçava-se para falar o tempo todo, e começou a me contar a sua vida. Em determinado momento, perguntou-me se eu tinha um melhor amigo, ao que respondi que sim, falando-lhe um pouco de Ítalo e de algumas aventuras pelas quais já havíamos passado (claro que omiti a história do Coronel).
Bruscamente ele me interrompeu, com um tom bem amargo:
– Eu também já tive um grande amigo, mas as amizades são levadas embora pelo dinheiro e pelo orgulho…
Apesar da curiosidade, não consegui dizer nada. Fiquei calado, observando-o, compadecendo-me da sua tristeza. Após cerca de um minuto em silêncio, ele continuou:
– Minha amizade durou muitos anos. Éramos os melhores amigos que poderiam existir neste mundo. Fazíamos de tudo juntos: pescávamos, trabalhávamos, cantávamos, corríamos. Tínhamos o plano de sermos padrinhos de casamento um do outro, de um batizar o primeiro filho que o outro tivesse. Nossas casas seriam próximas e um ajudaria o outro na roça, na hora de plantar, de colher. Nossa velhice seria uma alegria só: sempre visitaríamos um ao outro, e sentaríamos em frente à casa e observaríamos o sol se por, e passaríamos horas contando histórias e lembrando das aventuras que vivêramos.
– Mas o dinheiro e o orgulho acabam com tudo, meu filho… Nunca deixe que eles tomem conta da sua cabeça.
– O que aconteceu exatamente, seu Inácio?
Ele parou, dessa vez por uns bons dois minutos, provavelmente avaliando se deveria abrir seu coração para um garoto que mal acabara de sair das fraldas e que até então ele nunca havia visto.
– Eu estou chegando ao fim da minha vida, meu filho – começou, em tom solene.
– Hoje vejo que a única coisa que devemos guardar no coração são as pessoas, e não o dinheiro. Espero que você aprenda bem essa lição. Ontem sonhei que a minha Mãezinha do Céu iria ficar do meu lado todo o tempo, pois está chegando o momento de eu partir. Não adianta mais guardar mágoas, ficar com o peito cheio de angústia e de arrependimento. Sabe quando foi que eu briguei com meu amigo? Foi no dia 18 de novembro de 1921. Completou sessenta anos na semana passada. E você vir aqui, hoje, me fazer lembrar de tudo isso só pode ser um sinal.
– Ele sempre sustentou os pais, desde que era bem novo, pois o pai teve um acidente e ficou incapacitado de trabalhar. Sua mãe perdeu vários bebês, e só ele consegui sobreviver. Eu também era de família pobre, e a gente morava bem perto um do outro. Nós já éramos adultos nessa época. Ele tinha trinta e cinco anos e eu, vinte e dois. Desde que eu tinha uns oito anos eu o via como um irmão mais velho, e ele me considerava o irmão mais novo. Ele planejava se casar, e juntava dinheiro para isso. Sempre foi muito, muito econômico. Todos o chamavam de sovina, e tinham razão. Como sempre haviam passado muita dificuldade, ele nunca se desfazia de nada, pois achava que não iria conseguir comprar de novo. Eu nunca fui assim, mas tinha um defeito talvez ainda pior: era muito, muito orgulhoso. Esses dois defeitos provocaram a nossa briga e acabaram com a nossa amizade. Era para hoje ele estar aqui, ao meu lado… Me assistindo na hora da morte…
Lágrimas marejaram seus olhos. Ele fez mais uma pausa.
– Nessa época éramos inseparáveis, como irmãos. Um determinado dia, indo trabalhar em outro povoado, conheci uma moça. Era a Ana, que hoje é a minha mulher. Fiquei encantado com ela e queria fazer uma surpresa. Eu sempre fui também bastante vaidoso, e me achava muito bonito e bom de papo. Você me vê assim hoje, acabado, mas eu já fui considerado muito elegante, pode perguntar a Ana – e ele deu um sorriso amarelo e triste.
– Como eu falei, meu amigo nunca jogava nada fora, e sua casa era repleta de bugigangas. Eu lembrava que lá havia uma viola que havia sido recebida em pagamento por algum serviço prestado há muitos anos pelo seu pai, antes ainda do acidente. Ele nunca havia tocado na viola, e ela era belíssima. Eu não sabia tocar, mas tinha certeza de que a minha simples aparição em frente à casa de Ana batendo os dedos nas cordas do instrumento causariam uma bela impressão na moça. Fiquei com medo de pedir a viola emprestada, pois, como falei, eu era muito orgulhoso. Mas, depois de pensar bastante, confiante na amizade que nos unia, resolvi arriscar.
– Falei da moça e expus-lhe meu plano. Ele inicialmente disse que não emprestaria, o que já me deixou imensamente magoado, apesar de não ter lhe falado nada naquele momento. Ele, no entanto, pareceu perceber, tanto que me deu a viola, não sem me passar centenas de recomendações sobre o cuidado que deveria ter, que não poderia dar a ninguém sequer para segurar, etc. etc. Eu só não o xinguei naquele momento porque queria muito fazer a surpresa para Ana, mas saí dali convencido de que ele não era meu amigo de verdade, uma vez que fez tudo aquilo comigo.
– Resumindo a história, fiz a serenata, mas, quando acabei, caí na besteira de colocar a viola encostada em um banco, para poder me sentar e conversar com Ana e com a sua mãe. Estavam lá também dois irmãos meus e uma família que morava próximo à casa dos pais de Ana. Quando sentei, o banco balançou e a viola caiu. No momento que me abaixei para pegar a viola, ouvi um grito vindo de trás de uma laranjeira que ficava perto da porteira. Ao levantar o olhar, vi que Genário estava vindo esbravejando:
– Eu falei para você ter cuidado com a viola!!!!! E você derruba, arranhando ela toda!!
– Todos pararam, sem palavras. Eu demorei um tempo para entender o que estava acontecendo, até que me dei conta de que, todo aquele tempo, Genário esteve me seguindo e veio me observar secretamente para ver se eu tinha cuidado com sua viola. Era demais para mim. Eu me sentia humilhado diante de toda aquela gente. Meu orgulho falou mais alto. Ele ainda gritava quando eu parti para cima dele e dei-lhe um empurrão, dizendo que ele era um desgraçado, um traidor, e que, desde aquele dia ele poderia considerar que eu não era mais seu amigo.
– Ele parou, olhou-me e simplesmente andou até a viola, apanhou-a e, dando as costas, saiu, sem dizer uma palavra…
– Sessenta anos que essa besteira aconteceu. A avareza de um, o orgulho do outro, e uma amizade acabou.
Quando ele acabou a história é que pude perceber que ele já estava sentado na cama, com as pernas para fora, como se fosse se levantar.
– E nunca mais vocês se falaram? Um nunca pediu desculpas um ao outro?
Eu era orgulhoso demais para isso, e, além do mais, na minha concepção, eu estava certo. Ele é quem havia errado. Hoje vejo que também não faz diferença que está certo e quem está errado, contanto que um perdoe o outro… Mas já é tarde…
– Não! – falei, mais alto do que pretendia – Por que o senhor não vai lá e conversa com ele? Ele mora longe? Ainda há tempo, é só o senhor querer.
Após algum tempo consegui convencer seu Inácio. Minha ousadia parecia não ter fim. Corri até a casa de um charreteiro e, para a minha surpresa, quando voltei, encontrei seu Inácio de pé, do lado de fora da casa, esperando. Dona Aninha me disse, com lágrimas nos olhos, que havia meses que ele não saía de casa. No máximo andava um pouco do quarto para a cozinha e só. Ela também disse que não iria, que bastava que eu, o anjinho do céu – foi essa a expressão que ela usou – acompanhasse seu marido.
Já era quase noite quando saímos. A casa de seu Genário de Dodó era próxima, e não demoramos a chegar. O charreteiro abriu o colchete, fechado com arame farpado, e ficou esperando do lado de fora. Bem devagar, fui ajudando seu Inácio a cruzar a pequena distância que separava o colchete e o alpendre da casa de seu Genário. Ele parecia contemplar cada pedaço de terra, cada bugiganga ali jogada, talvez relembrando velhas histórias vividas com o amigo. Ao chegar ao alpendre, percebi que alguém nos observava lá de dentro da porta entreaberta, sob a luz de um candeeiro.
– Ô de casa! – gritei.
A porta se abriu completamente após alguns instantes e um senhor magro, meio curvado, com chapéu e roupa surrados nos recebeu.
– Que é que vocês querem?
– Queria conversar com você, Genário – seu Inácio levantou a cabeça e tirou o grande chapéu de palha que usava para se proteger do sereno, como recomendara dona Aninha.
O velho Genário ficou por alguns segundos completamente imóvel. Acredito que ele jamais imaginaria receber a visita de um amigo com quem brigara há sessenta anos. Depois de um tempo, convidou-nos para entrar. O que aconteceu lá dentro me influenciou pelo resto da minha vida. Foi uma lição de como o tempo pode ser cruel e de quanto são inúteis todo apego a coisas materiais e todo orgulho. Também aprendi que a reconciliação deve ser feita de imediato, pois cada segundo que perdemos jamais poderá ser recuperado.
– Vim pedir perdão a você, Genário – disse seu Inácio, logo que se sentou.
A luz do candeeiro tremulava por causa do vento leve que corria, fazendo com que se formassem sombras dançantes nas paredes, no teto, e no chão. Eu procurava fixar meu olhar na sombra de seu Inácio, procurando nela qualquer sinal sobrenatural que demonstrasse o peso de sessenta anos de remorso saindo das suas costas.
– Eu deveria ter tomado cuidado com sua viola. Sempre fui muito orgulhoso. Quando você apareceu falando tudo aquilo eu me senti humilhado na frente da moça por quem eu estava apaixonado… Perdi a cabeça e destruí nossa amizade. Todo esse tempo tentei alimentar raiva por você para justificar o fato de não ter vindo lhe pedir perdão. Mas não consegui. Você era meu amigo, e, mesmo a gente não se falando, continuei sem conseguir odiá-lo. Minha morte está próxima. Não me deixe partir sem ter a certeza de que você não tem mais raiva de mim. Queria ouvir você dizer que me perdoa…
Seu Genário ouvia tudo mudo. Na verdade, ele nem se movia. Eu, que prestava atenção em tudo, sabia que ele tentava se segurar, mas que queria mesmo era chorar. De repente, ele se levantou e, sem dizer uma palavra, andou em direção ao seu quarto. Ficamos, os dois, calados, na sala, aguardando, não sabíamos o quê. Até que começamos a ouvir um barulho vindo da direção do quarto que não demoramos a compreender: era um choro. De início, parecia que seu Genário tentava se conter. Quando os primeiros soluços brotaram, entretanto, deram vazão a outros e mais outros, e ouvimos o arrependimento de sessenta anos de mágoa se desfazer num choro desajeitado e irreprimível. Seu Inácio ouvia e chorava. Eu via seu Inácio chorar e chorava também, não sei bem por quê.
Após alguns minutos, o choro de seu Genário parou, e o ouvi se arrastar lentamente em direção à sala. Eu me recompus, ansioso por ver o desenlace daquela história.
Quando seu Genário apareceu, trazia em suas mãos a velha viola. Ele a estendeu na direção do seu amigo, dizendo:
– É sua, Inácio. Esteve aqui esses anos todos apenas esperando por você, e eu jamais tive coragem de ir lhe entregar. Perdoe-me, meu amigo – e mais uma vez as lágrimas.
Eles conversaram bastante naquela noite, e riram, choraram, lembraram histórias, anedotas, coisas tristes e alegres. Pareciam querer recuperar todo o tempo perdido em algumas horas. A imagem que eu tinha de velho avarento e rabugento não poderia parecer mais distante da realidade, já que seu Genário estava muito bem humorado e parecia mesmo nutrir alguma afeição por mim, perguntando-me, eventualmente, como começara toda aquela história.
Lembro que, quando chegamos à casa de seu Inácio a minha avó estava lá, com dois tios meus, à minha espera, pois já passava da meia-noite. Despedi-me afetuosamente dos dois velhinhos e ganhei a viola do seu Inácio, acompanhado do seguinte ensinamento:
– Estou lhe dando essa viola, que muito provavelmente é o primeiro presente que Genário deu a alguém nos seus mais de noventa anos de vida e que, portanto, significa muito para mim, para que você compreenda que o que importa não são as coisas, mas as pessoas. Tire todos os objetos que têm ocupado espaço em seu coração, porque eles impedem que as pessoas o habitem.
***
– Espero que, com essa história, você tenha entendido o que fazer com o seu Dragão.
Imediatamente, Tiago pegou o Dragão Diamante das mãos do pai e o entregou ao seu primo Vítor, abraçando-o em seguida.
André sorriu satisfeito. Suas histórias ainda surtiam efeito em seu filho.
– Pai!
– Oi.
– E o livro antigo? Você não falou com seu Genário? O que aconteceu com a gincana?
– Depois de tudo aquilo você acha que eu teria coragem de pedir? A Mônica ficou com raiva de mim porque perdemos a gincana por causa dos vinte pontos que não consegui ganhar. Foi melhor assim, já que, pouco tempo depois conheci uma bela garota de olhos bem pretos e cabelo ondulado. Seu nome era Elisângela, e você sabe bem quem ela é.
– Minha mãe.
– Isso mesmo. Como eu consegui conquistá-la prometendo-lhe publicar um poema dela no maior jornal do estado é outra história bem interessante. Mas fica para a próxima vez…
