[Especial Lygia F.T.] A Barca e a Casa
literatura brasileira, análise literária, arquitetura, psicologia do espaço
O espaço da narrativa funde-se com o espaço psicológico da narradora de tal modo que o ambiente é também sua própria personalidade Ygor de Góes Senna, Especial para Fina “Não quero nem devo lembrar daqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que em redor tudo era silêncio e treva. E me sentia bem naquela solidão. Naquela embarcação desconfortável, tosca, apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher com uma criança e eu.” Assim começa Natal na Barca, de Lygia Fagundes Telles. Enquanto arquiteto (e devo dizer que para todos aqueles que se dedicam ao espaço), este conto me é muito caro. O espaço da narrativa funde-se com o espaço psicológico da narradora de tal modo que o ambiente é também sua própria personalidade. A barca é um não-lugar, a passagem entre dois mundos e, nesse espaço entre, os anseios mais profundos estão em conflito, isto é, em travessia. Tudo está escuro e a visão da “luz vacilante” não permite clarezas, mas as pistas estão lá: é pelo toque da água “tão gelada” que possibilitará chegar em algum lugar, talvez mais “quente”.
Texto originalmente publicado em Revista Fina