Dedico este post a Cássio Queirós

(resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, em 10 de junho de 1997)

A tragédia do Titanic está na moda novamente. Há filmes sobre o assunto a caminho, há um musical premiado na Broadway. Até mesmo a rainha dos best Sellers, Danielle Steel aproveitou o acidente trágico num de seus últimos caça-lágrimas&níqueis semestrais.

Em Cântico para a última viagem (no original, Salme ved Reinsens Lutt, traduzido por Sissel Cardona), de Erik Fosnes Hansen, o naufrágio ocorrido em 1912 é aproveitado de maneira inteiramente diferente. Aliás, a tragédia propriamente dita ocupa vinte das mais de quatrocentas páginas da narrativa. No romance do autor norueguês, o Titanic serve para reunir as trajetóriaa (e transformá-las em destinos) dos personagens principais, membros da orquestra do navio: Jason, o regente; Alex e David, os violinistas; Spot, o pianista, e Petronius, o baixista. Há, ainda, o francês Georges, que resume para os outros os mitos gregos da criação do mundo, e o irlandês James. Fica evidente, portanto, a intenção de Hansen de fazer um painel simbólico da Europa.

Cada uma das histórias dos membros da orquestra do Titanic exemplifica uma das mais fecundas tradições do romance europeu: o romance de formação. E cada um deles, seja em Londres, em São Petersburgo (Leningrado), em Viena, nas cidades italianas, no interior da Alemanha ou em Paris, vai se confrontar com as escolhas individuais e com as fatalidades exteriores, constatando que as escolhas não são tantas assim.

Por meio dessas trajetórias, os grandes temas do romance europeu (a questão da liberdade individual, da procura do sentido da vida, em meio a uma organização social que não tem sentido algum; a solidão; a morte) são articulados para produzir a grande ironia: no final, a Europa pré-Primeira Guerra Mundial naufraga com seus representantes no Titanic. Um pouco como A montanha mágica, a obra-prima de Thomas Mann, Cântico para a última viagem concentra a discussão sobre o fim do mundo europeu anterior à conflagração de 1914 num único espaço simbólico.

Hansen vai preparando o grande tema do naufrágio e da morte coletiva (e ao mesmo tempo tão solitária) com as referências à arca de Noé e às barcas da peste (que aparecem na história de Jason) e a Ícaro, que sonhou com o sol e acabou afogado no mar por sua excessiva ambição (na história de Spot). Isso sem contar o afogamento da garota que fica grávida de Jason, incidente que nos mostra o desamparo individual frente a uma organização social cristalizada e indiferente. O próprio Jason tem uma prefiguração de seu destino, muito tempo antes de embarcar como regente da pequena orquestra do malfadado Titanic:

Não podia negar: vivia num bairro pobre. Talvez ele já fosse um dos muitos sem-rosto, mas não tinha sido essa a intenção. Pensava no pai e na mãe; certamente haviam imaginado algo melhor para ele. Sim, era um dos sem-rosto. Se fosse aquela noite até a ponte de Waterloo e se desaparecesse nas fortes correntes do Tâmisa, o que teria significado? Nada, nem para Deus, em quem não acreditava, nem para as pessoas, nas quais em momento de tristeza ele também não acreditava”.

Essa oscilação entre a aguda percepção de ser uma individualidade e, ao mesmo tempo, a constatação da insignificância da individualidade, do nada que a gente é, também permeia a trajetória de Spot:

Relembrava, e pensava, e sabia que ele próprio não significava nada, que não era ele. Ao fim e ao cabo, não existia”.

Nesse sentido, a história de Alex, o russo, vai configurar a voluntária supressão da liberdade individual em favor de um líder carismático, o deixar-se ir pela vontade de outro (que, na história européia, acarretará as conseqüências terríveis que conhecemos): ele cai sob a influência de um contorcionista, líder de uma quadrilha…


Como se pode ver, há muita coisa em Cântico para a última viagem. Erik Fosnes Hansen escreveu um livro talentoso. Tinha 25 anos, ao publicá-lo em 1990. Por isso, podem ser perdoadas certas falhas. Entre elas, as que mais atrapalham a leitura são as explicações didáticas de temas complexos, míticos ou filosóficos, em particular, a explicação da Teogonia, de Hesíodo, ruim e forçada, numa espécie de “simplificação para jovens” (ou para o leitor mediano) que, se o livro tivesse sido publicado antes de O mundo de Sofia, poder-se-ia imputar a ele uma influência de Jostein Gaarder. Há também partes bem fracas do livro, como os diálogos de Jason com a menina que depois se suicida ou o início da segunda parte, por exemplo; e há um recurso que o autor utiliza, como se estivesse conversando com os personagens (ou eles consigo mesmo), que é decididamente irritante, cafona mesmo 1:

Esta noite você sonha com ela, David. Ela sonha com você? Estão sós. Não são mais vocês. São Você e Você. Vocês dois nasceram na luz. Agora Você e Você serão criados na escuridão”!!!???

Para não falar na nota final do autor, absurdamente pernóstica e desnivelada do tom do livro.

Cântico para a última viagem não é um A motanha mágica nem mesmo um E la nave va, de Fellini, ou um A nau dos insensatos, de Katharine Anne Porter. No final das contas, porém, Hansen conseguiu o feito primordial de qualquer escritor ou diretor cinematográfico: plasmar um mundo que nos envolve. E a possibilidade do fim do mundo em 2000, tão apregoada, um mundo onde alta tecnologia e miséria extrema convivem, uma possibilidade que torna todos os nossos pequenos problemas mesquinhos tão risíveis, faz com que todos nos sintamos num Titanic, onde grande eventos e miúdas preocupações terão o mesmo destino.

1 Vargas Llosa também é useiro e vezeiro desse recurso, mas o dilui na narrativa com tal habilidade que não chega a atrapalhar.