(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 24 de março de 1998)

O leitor pensa: novamente a mesma triunfalidade na partida do Titanic, em abril de 1912, a mesma arrogância do pessoal da primeira classe, os mesmos avisos persistentes sobre icebergs ignorados pelo comandante, a mesma perplexidade diante da constatação de que o navio afundará, o mesmo atropelo, a mesma falta de escalares suficientes para todos, o mesmo avanço inexorável da água a bordo, a mesma quebra do navio em dois,  o mesmo desaparecimento no oceano gelado que arremata o serviço de mortandade…

Qual é a novidade de  CADA UM POR SI (Every man for himself, Inglaterra-1996, em tradução de Carlos Süssekind), de Beryl Bainbridge, após o disaster love (e, a meu ver, um desastre como obra cinematográfica) de James Cameron?

Dessa vez, a história é contada por Morgan, sobrinho do proprietário da Companhia que construiu o Titanic. Adotado pelo tio, com uma infância obscura e constrangedora, ele divide-se entre os interesses cotidianos da sua classe e uma superficial atração pelo socialismo. Durante os poucos dias da travessia, sofre também uma desilusão romântica: era apaixonado pela estranha Wallis. E ficara fascinado por Scurra, um homem misterioso (que me lembrou aqueles personagens de Orson Welles, como  o Mr. Arkadin, de Grilhões do passado), com o qual discutia com franqueza os mais variados assuntos, e o qual lhe deu dicas sobre a Vida (numa certa altura, chegara a suspeitar que ele fosse seu desaparecido pai).

Morgan descobre que Scurra e Wallis são amantes. Por causa dessa situação, Scurra diz a ele a frase-clichê que dá título ao romance. Cada um se vira por si e procura levar a melhor (a Lei de Gérson, em suma).

CADA UM POR SI concentra-se no universo da primeira classe, para a qual foi construído o Titanic e da qual ele é o símbolo, tanto na triunfalidade quanto na fatalidade.

Nada de rapazes pobres da terceira classe que, como Cinderelas, participam de jantares suntuosos e ainda dão lição de moral  para milionários enfatuados (o que a carinha de franguinho mal desovado de Leonardo di Caprio ajuda a tornar mais risível; mas a sua partner não fica atrás: como alguém pode aceitar o filme de Cameron como “romântico” quando se sai com a memória de uma cena em que ela, andando paquidermicamente, com uma aparência assustadora e um machado na mão nos parece transportar para o hotel mal-assombrado de O iluminado?). O mundo de Morgan é um mundo de domínio: “Foi a sublime termodinâmica de engenharia naval do Titanic que nos cortou a respiração. Deslumbrado, eu estava pensando que se o destino do homem se achava ligado à ordem do universo, e se era possível igualar o funcionamento cientificamente construído das máquinas ao do universo, em perfeita reciprocidade, meu Deus, nada poderia dar errado no meu mundo”.

É um mundo restrito: “Veja em volta. Este lugar está abarrotado de gente que frequentou os mesmos colégios, as mesmas universidades, assistiu às mesmas aulas de esgrima, teve os mesmos professores de dança, de música, de latim, os mesmos instrutores de tênis”.

E é um mundo perigosamente alienado. Enquanto há um persistente incêndio nas caldeiras, Morgan nos fala das preocupações do projetista do navio, que está a bordo: “Andrew planejava vários ajustes e alterações. O calçamento de pedras no passeio exclusivo do convés da primeira classe ficara com um colorido um pouco escuro demais; a aparência das cadeiras de vime no lado de estibordo poderia ganhar se tingidas de verde; havia parafusos demais nos cabides para pendurar chapéus dos camarotes…”. E assim por diante.

Portanto, pode haver a mesma triunfalidade na partida, a mesma arrogância da primeira classe,os mesmos avisos ignorados de icebergs, a mesma perplexidade diante da constatação do afundamento iminente, o mesmo atropelo, a mesma insuficiência de escaleres, o mesmo avanço da água, a mesma quebra em dois, o mesmo desaparecimento no oceano gelado, as mesmas mortes. Nem por isso, CADA UM POR SI se deixa levar para o mundo raso da pieguice industrializada que caracteriza a superprodução de James Cameron, onde o público parece uma claque amestrada: hora de rir, pessoal; hora de chorar…

Que alívio ver os momentos mais fortes da tragédia descritos com sobriedade, sem aquela perversidade de transformar tudo em espetáculo e efeitos de última geração.

O mundo de Morgan e seus parceiros da primeira classe é restrito e alienado, mas é justamente das suas preocupações triviais, das suas irrelevantes questões, tão fortuitas, que o livro da autora inglesa tira a sua força. Ao abalroar preocupações corriqueiras que contam com a existência do futuro com o iceberg da fatalidade, ela cria significados irônicos, inesperados.

E um deles se refere ao próprio título (que, a princípio, parecia ser uma provocante negação do heroísmo e da bravura diante da morte iminente, sempre associados a certos atos na tragédia do Titanic). Morgan, com suas ínfimas desilusões sentimentais, poderia dar crédito à afirmação de Scurra, de que na vida é “cada um por si”. Porém, o destino e a fatalidade, que mostram a ele que tudo pode dar errado em seu mundo, ao contrário do que acreditava, acabam por ensiná-lo que todos estão no mesmo barco.