Centrado em Cecília, narradora e protagonista dotada de extrema crueza, A Pediatra é redigido de modo a acentuar a desconstrução de lugares-comuns ligados a temas espinhosos, como a maternidade e o papel feminino, a partir das contradições de sua personagem principal. Por Giovana Proença Cecília é uma pediatra que detesta crianças. É sob este aparente paradoxo que Andrea Del Fuego constrói o seu terceiro romance. Centrado em Cecília, narradora e protagonista dotada de extrema crueza, A Pediatra é redigido de modo a acentuar a desconstrução de lugares-comuns ligados a temas espinhosos, como a maternidade e o papel feminino, a partir das contradições de sua personagem principal. Vencedora do Prêmio Literário José Saramago com Os Malaquias (2010), a autora paulistana acerta em colocar uma anti-heroína por excelência como força central de A Pediatra. Fria, Cecília não esconde o desapreço por seus pequenos pacientes e elenca uma sucessão de fatos que não suporta em suas relações – familiares, sociais e românticas; todas falidas. Longe de ter vocação, ela se gradua em medicina por influência do pai e por status. Após o fim de seu casamento, Cecília passa a viver um relacionamento casual com Celso, homem casado e pai de um de seus pacientes. O filho de Celso, Bruninho, é o catalisador para a mudança sentimental que se dá na protagonista. A pediatra cria um afeto pelo menino que beira à obsessão, gerando um dos mais interessantes pontos da trama, a partir da exploração da psiquê desta personagem multifacetada. Sobre o romance, Andrea Del Fuego responde às perguntas da Fina: Revista Fina: De onde surgiu a ideia para “A pediatra”?Andrea Del Fuego: Eu já vinha com vontade de escrever na primeira pessoa de uma personagem mulher há alguns anos, mas não sabia quem ela era. A ideia de uma pediatra que não gosta de criança veio num dia qualquer e, desde então não sosseguei até finalizar o livro. Como foi o seu processo de escrita ? Primeiro iniciei pesquisa de termos médicos e doenças. Relatos sobre parto, por exemplo, eu já havia lido muito na época da minha gestação. Pesquisei perfis de médicos na redes sociais e conversei brevemente com dois pediatras. Depois pesquisei a voz da pediatra reescrevendo durante alguns meses as primeiras cinco páginas até encontrar o tom. A partir daí o livro levou um mês para terminar, não é meu padrão, o primeiro romance levou sete anos, por exemplo. De que maneira você pensou essa protagonista tão singular – quase uma anti-heroína – que conquistou tanto a simpatia dos leitores?Na pesquisa da voz da personagem, percebi que ela era um tanto desfuncional e isso lhe dava um caráter adoecido, solitário e de uma relação com o próprio pensamento sem nenhum contorno. Ela foi se desenhando com emoções sem filtro. De alguma maneira, essa incontinência emocional é sua própria companhia. Acho que esse pode ser um dos elementos interessantes para o leitor, o consumo da própria solidão ou o auto-consumo. Cecília é uma mulher privilegiada, que ocupa uma posição social de destaque. Como foi tocar questões sociais de modo tão sutil e potente, sem cair em um didatismo?Deixando a linguagem da própria personagem falar por si. A linguagem dela daria conta de revelar seu elitismo, por exemplo. Em seu livro, estão presentes temas caros ao feminismo contemporâneo, como a maternidade e a liberdade sexual. Você planejou essa relação ou ela surgiu naturalmente? Surgiu naturalmente. Talvez, por situá-la no presente, isso já se encarregue da sincronicidade com o nosso tempo. Andrea, você já tem sido reconhecida por sua literatura, com o Prêmio José Saramago, por exemplo. Você considera que em “A pediatra” há um deslocamento na sua escrita, com relação às obras anteriores?Senti agora ao revisar ”Os Malaquias”, romance que ganhará segunda edição nos próximos meses. De toda forma, meu livros são muito diferentes um do outro. Há um caminho em zigue-zague ou nem isso, cada livro tem um jeito de ser. Quais são suas principais influências literárias?Sempre o que estou lendo no momento, além da literatura contemporânea, voltei o Freud. Alguns leitores podem considerar a sua escrita como “direta”. Não há eufemismos, as coisas são narradas tais como elas são. Qual efeito você pretende com isso? Aproximar o leitor da própria experiência da personagem, assim como aproximá-lo dos ambientes e das vozes. Muitos leitores têm dito que leram o livro em uma tacada só. Como você pensou o ritmo da trama?Escrevi também numa tacada só, em apenas um mês. Pensei na fruição de um conto. Uma experiência com apreensão de um bloco narrativo coeso e breve. Que mensagem você gostaria de deixar aos leitores do Brasil de hoje?Escrevam também! Publicado por Giovana Proença Taubateana de 2000. É pesquisadora na área de Teoria Literária na USP. Tem textos sobre livros e literatura publicados em jornais como Rascunho, Estado de Minas e O Estado de S. Paulo Ver todos os posts de Giovana Proença