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Novo romance da autora de ‘Tudo pode ser roubado’ constrói dilacerantes protagonismos femininos
Giovana Proença
A tensão é construída desde a primeira linha. “Estou raptando uma criança”, anuncia a narrativa de Suíte Tóquio, o mais recente romance de Giovana Madalosso, publicado pela Todavia. Com a publicação de Tudo pode ser roubado, em 2018, a escritora vem sendo reconhecida como uma voz promissora na prosa brasileira contemporânea. Suíte Tóquio é o modo como a mãe – a patroa – escolhe chamar o quarto da empregada.
A alcunha é o modo de suavizar o vínculo de toda a vida da babá ao microcosmo do trabalho. O cômodo é transformado, assim, em algo semelhante a uma suíte de hotel, o modus operandi de um Brasil que funciona sob a máscara cordial. “ Essa suíte tornou-se o epicentro da história, condensando os dramas pessoais e conflitos de classe de forma orgânica, sem que eu precisasse planejar muito.”, Madalosso define o núcleo do romance.
Quem confessa o crime que serve de motor à trama é Maju, uma das narradoras de Suíte Tóquio, e babá da menina Cora. Por sua ótica, temos o primeiro contato com o livro. A outra voz que conhecemos é a da mãe da criança, Fernanda. Colocadas em pé de igualdade por Madalosso, as duas mulheres revezam o comando da história, sempre em primeira pessoa. A autora explica: “Não queria privilegiar o ponto de vista de uma, nem de outra, queria expôr tudo com isonomia, e sem fazer julgamentos.”
Madalosso vai além, e manifesta seu posicionamento na forma do feminismo e “na escolha de personagens pouco retratadas na literatura”. Em Suíte Tóquio, essa afirmação é representada por duas personagens femininas, que se opõem e complementam em diferentes conflitos. Fernanda vive entre o cargo de destaque, o desbravar do mundo do trabalho e o desvendar da sexualidade, do erotismo e do amor; mantendo um caso extraconjugal com outra mulher.
Maju é a babá que dedica toda a vida à menina Cora, e chora o relacionamento falido com o marido, fadado ao fracasso devido às imposições do emprego, ao som de Elton John. Nesse sentido, a viagem de Fernanda ao lado da amante é símbolo máximo da distância, fuga das limitações do lar. Enquanto isso, Maju está presa nas proximidades do enclausuramento em sua suíte, vestindo o uniforme do Exército Branco – modo como Fernanda vê o conjunto formado pelas babás da vizinhança.
Suíte Tóquio é um tratado moderno sobre os lugares da maternidade, e da mulher brasileira do século XXI. “É muito difícil falar em maternidade contemporânea quando temos tantas realidades distintas coexistindo em um só tempo” Madalosso contesta o rótulo generalizante. Estamos, afinal, diante de uma história de desigualdades, que sintetiza a divisão escancarada pelo Brasil de Bolsonaro – mas cujas sombras há tempos se escondem por trás do (in)cômodo aos fundos das residências da classe média e da elite verde e amarela.
“Todo amor é um sacrifício”, a epígrafe do romance, retirada de Arnon Grunberg, evidencia o cerne Suíte Tóquio: de quem são pedidos os sacrifícios. Madalosso nos convida a questionar a existência do símbolo máximo do conflito – o quarto de empregada – e ressoa o questionamento: Livre das amarras do uniforme e de uma burguesia incapaz de cuidar de si mesma, que diria o Exército Branco?
Você é uma autora que vem se destacando dentro da literatura brasileira contemporânea. Quando começou o seu gosto pela escrita e em que momento você se reconheceu como escritora?
Escrevo desde que me alfabetizei. Aos oito anos, já escrevia diários, desenhava histórias em quadrinhos. Com dez anos criei uma língua, cheguei a ensinar para outra pessoa, lembro de algumas frases até hoje: xa tomchap automaton trola? Aos quinze, ganhei uma bolsa na escola pelos meus poemas e logo passei a escrever contos. Acho que já era escritora desde então, mas só fui me assumir como tal perto dos quarenta anos, quando publiquei meu primeiro livro. Essa demora se deu em função da desqualificação do trabalho artístico no contexto social em que eu vivia, uma classe média bastante conservadora.
Seus dois romances, Tudo pode ser roubado e Suíte Tóquio conquistaram boas opiniões da crítica. Como foi para você essa recepção?
Fiquei muito feliz, claro. Mas o que me deixa ainda mais feliz é a resposta do leitor, saber que muita gente está lendo o livro e que a leitura está fazendo alguma diferença para as pessoas. Muitos me procuram para agradecer porque se identificam com os personagens, percebem que não são os únicos a atravessar certas crises e dores. Ou me procuram para dizer que foram absorvidos pelo livro, o que considero um vitória nesse contexto de tanta angústia e dispersão.
O que te levou, como escritora, a retratar a realidade de uma profissão tão determinante e vista como invisível como as babás – o Exército Branco?
Quando minha filha nasceu, passei a frequentar a praça do meu bairro e ouvir as histórias das babás. Era comum ouvir histórias de mães que deixaram seus filhos no nordeste para cuidar dos filhos dos outros em São Paulo. Também acompanhei o caso de uma babá que se viu obrigada a largar seu recém-nascido numa sacola, na frente de um prédio, porque ele não seria aceito no quarto de empregada em que ela morava.
Essas mulheres seguram no colo e nas costas a nossa sociedade, permitem que nós, mulheres e homens possamos nos realizar, e ninguém fala delas. É como se fossem invisíveis. Nasceu daí a minha vontade de escrever a respeito do que chamo de exército branco, fazendo uma referência aos seus uniformes.
Como foi o processo de desenvolvimento de uma história com tantas nuances e de que modo, como autora, você vê o equilíbrio entre o social e o microcosmo familiar no livro?
Levei dois anos trabalhando nesse livro. Escolhi chamá-lo de Suíte Tóquio porque é assim que uma das narradoras, a mãe da criança, apelida o quarto de empregada da sua casa, após fazer uma reforma e transformá-lo em algo próximo a uma minúscula suíte de hotel, para atrair a babá a praticamente morar lá dentro. Essa suíte tornou-se o epicentro da história, condensando os dramas pessoais e conflitos de classe de forma orgânica, sem que eu precisasse planejar muito.
Em Suíte Tóquio, temos duas narradoras com vozes distintas. Como você pensou essa divisão?
Quando decidi que ia contar a história de uma babá e de uma mãe, pensei que queria colocá-las em pé de igualdade. Não queria privilegiar o ponto de vista de uma, nem de outra, queria expôr tudo com isonomia, e sem fazer julgamentos. Para isso deixei que cada uma narrasse a sua história em primeira pessoa, tomando o cuidado de revezar os capítulos, dando o mesmo espaço para cada voz.
Como você enxerga a maternidade contemporânea? E de que forma você vê o conflito entre ser mãe e explorar esferas da vida, como a carreira e a sexualidade?
É muito difícil falar em maternidade contemporânea quando temos tantas realidades distintas coexistindo em um só tempo. Algumas mães com acesso à informação, outras que não foram incluídas no universo digital ou sequer alfabetizadas. Algumas que não podem usar métodos contraceptivos por questões religiosas, outras que só têm filhos porque não puderam abortar. Do outro lado do mundo, temos as sauditas, que passaram a votar apenas em 2015, sem arbítrio sobre suas trajetórias. Ou seja, a maternidade contemporânea são muitas. Para as mulheres que têm o privilégio de entoar na prática o Meu corpo, minhas regras, acredito que estamos vivendo uma boa fase, de entendimento de que não estamos aqui para servir o outro. Seja o outro nosso parceiro ou o nosso filho.
Como está sendo para você o processo de adaptação do romance para o cinema?
Cogitei me envolver na adaptação mas acabei desistindo. Há mulheres tão talentosas no cinema, achei melhor colocar o trabalho nas mãos de uma roteirista e de uma diretora que vão trazer novas camadas para o livro.
Pensando no contexto pandêmico e na literatura, o que você pensa sobre o papel das lives e dos festivais literários on-line para os escritores e leitores quarentenados?
De certa forma, o formato online trouxe benefícios. Se numa feira literária éramos vistos por um público presencial de cerca de sessenta pessoas, esse número agora é maior, já que diversos leitores, de diversas partes do país, têm acesso aos eventos. Ganhamos em amplitude, mas perdemos num aspecto incomensurável: o de ver, sentir o público.
Na sua bio do Instagram, você se posiciona politicamente como feminista e climática. Para você, qual a importância da escritora – e do escritor – se colocar nos movimentos sociais? E como isso se manifesta na sua escrita?
Não acho que se colocar politicamente seja uma obrigação do escritor. Aliás, detesto qualquer tipo de obrigação no terreno da arte. Já ganhamos tão pouco e damos tanto, sermos cobrados seria injusto. Por outro lado, estamos vivendo um momento delicado: pandemia, miséria, ameaças de autoristarismo, genocício negro, indígena e, agora, de toda a população. Para completar, a crise climática vem aí para agravar tudo isso e aprofundar ainda mais as diferenças de gênero, classe e raça. Respeito quem fica alheio, mas confesso que não admiro. Os artistas que mais gosto sempre foram permeáveis a seu tempo e de alguma forma reagiram a ele, ainda que se colocando em posições equivocadas, que depois lhes gerariam arrependimento. No meu caso, o engajamento político surge na forma de feminismo e manifesta-se na escolha de personagens pouco retratadas na literatura.
Por último, se você pudesse deixar apenas uma mensagem para o Brasil de hoje, o que você escreveria?
Fora, Bolsonaro.