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Jun23

Maria do Rosário Pedreira

Como aqui então anunciei, este ano uma das minhas autoras (a espanhola Elena Medel) foi a convidada de Espanha para a Noite da Literatura Europeia. Depois da entrega do Prémio LeYa, fui a correr para a escola em cujo recreio aconteciam as leituras entre as 19h e as 22h. Para quem não conheça a prática, estas leituras são feitas, a cada meia hora, pelos autores nas suas próprias línguas e por uma actriz ou um actor em português. Ora, tendo eu entrado em cima do início de uma leitura, só tive tempo de cumprimentar os responsáveis do Instituto Cervantes quando o público já se levantava para ir ouvir a escritora italiana ao virar da esquina; e, como geralmente falo com eles em castelhano, ficámos uns minutos à conversa (também com a autora) ao lado de uma senhora que parecia aguardar que nos calássemos para intervir. Foi então que ela aproveitou uma aberta e disse em castelhano com sotaque alemão (ou parecido): «Que maravilha voltar a ouvir falar este idioma! Eu vivi muitos anos em Espanha, imaginem só o horror que foi ter mudado de Madrid para Lisboa... E, claro, parabéns à escritora.» Eu engoli em seco, perante as caras atrapalhadas dos senhores do Cervantes, e respondi apenas, desta vez na minha língua: «Ah, sim, então ainda bem que gostou.» Não vi se a senhora corou de vergonha porque a sessão era à noite, mas espero que sim, porque a minha vontade foi mandá-la para um certo sítio.