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Jun23

Maria do Rosário Pedreira

Para me desforrar do livro do pianista de que não tinha gostado, abri o novo romance de Coetzee, que tem um piano na capa, e fui lendo com prazer este O Polaco que, apesar de não ser dos melhores do autor (Desgraça é imbatível), tem esse toque de genialidade de um mestre que, não por acaso, ganhou o Nobel. Trata do relacionamento entre Witold, um pianista polaco de apelido impronunciável que toca Chopin de uma forma praticamente isenta de romantismo, e a senhora catalã que gere uma espécie de clube musical fechado e selecto para o qual o instrumentista é convidado  para fazer um concerto numa dada noite. Witold, passados meses desse encontro, confessa à sua ex-anfitriã que vive para ela, que ela lhe dá paz, o que a desconcerta, porque na verdade só estiveram em presença um do outro nessa noite; mas o pequeno romance é realmente fascinante porque descreve muito bem o facto de nunca conseguirmos ser completamente indiferentes a quem diz que nos ama, mesmo que nos pareça que a pessoa em causa não faz minimamente o nosso tipo. Questões como culpa, pena, consciência pesada, intimidade, diferença de idades, arrependimento, fidelidade, são aqui abordadas de maneira muitíssimo interessante, não isenta de humor, sobretudo quando um conjunto de poemas em polaco (e portanto incompreensíveis, mas muito provavelmente íntimos) aparece para ser entregue à espanhola.