Daniel Galera – Barba ensopada de sangue – Semana I

Obra Barba ensopada de   sangue
Autor Daniel Galera
Data 2012
Semana I
Trechos

Quando meu tio morreu eu tinha dezessete   anos e o conhecia somente a partir de fotografias antigas. Por algum motivo   insondável, meus pais diziam que a iniciativa da visita deveria partir dele e   se recusavam e me levar para o litoral catarinense com esse propósito. […]   Meu tio morreu afogado tentando resgatar uma banhista que caiu das pedras da   praia da Ferrugem num dia de ressaca assustadora com ondas de três metros   explodindo na costa. A banhista se agarrou à boia e foi socorrida em seguida   por outros salva-vidas. O corpo do meu tio nunca foi encontrado. Houve um   enterro simbólico em Garopaba e nós comparecemos.

[…] Conhecemos a viúva   dele, uma mulher de pele muito branca coberta de tatuagens esmaecidas, e seus   dois filhos pequenos, um menino e uma menina, os dois com olhos azuis da mãe.   Meus primos. O enterro tinha pouca gente. Minha mãe teve uma crise de choro   incompreensível e mais tarde ficou cerca de meia hora olhando para o mar e   falando sozinha, ou conversando com alguém. Havia outras pessoas olhando o   mar como se esperassem alguma coisa e tive a estranha impressão de que todas   estavam pensando no meu tio, embora ele fosse descrito como uma figura   reclusa e pouco conhecida, um remanescente de outra época.
[…] No início da década passada ele abriu   um pequeno consultório onde dava aulas de alongamento e pilates. A maioria   das pessoas lembra dele como treinador de atletas para triatlo e   aparentemente meia dúzia de campeões estaduais e nacionais passaram por seu   acompanhamento. Nas temporadas de verão ele abandonava suas atividades do   restante do ano para trabalhar como salva-vidas. Ele era o melhor.
[…] Era um homem   solitário , mas em algum momento se casou com uma mulher que ninguém sabia de   onde tinha aparecido e construiu uma casinha na encosta de um dos morros da   chamada Volta do Ambrósio. Todo mundo que lembra do meu tio desde os velhos   tempos menciona um cachorro manco que sabia nadar como um golfinho e entrava   no fundo do mar junto com ele. E o que podemos chamar de fatos terminam aí. O   restante dos depoimentos é composto de uma sobreposição caleidoscópica de   rumores, lendas e narrativas pitorescas. Diziam que ele era capaz de passar   dez minutos embaixo d’água sem respirar. Que o cachorro que o seguia por todo   o lado era imortal. Que tinha enfrentado dez nativos ao mesmo tempo numa   briga com as mãos limpas e vencido. Que nadava à noite de praia em praia e   era visto saindo do mar em lugares distantes. Que tinha matado gente e por   isso era discreto e recolhido. Que oferecia ajuda a qualquer pessoa que fosse   procurá-lo. Que tinha habitado aquelas praias desde sempre e para sempre   habitaria. Mais do que uma ou duas pessoas disseram não acreditar que ele   tivesse realmente morto.