| Obra | Barba ensopada de sangue |
| Autor | Daniel Galera |
| Data | 2012 |
| Semana | III |
| […] Tá. Mas mataram o vô. | |
| Pois é. A partir daqui a história é meio nebulosa e boa parte dela eu fiquei sabendo de segunda mão. Não sei bem o que aconteceu, e talvez não tenha acontecido nada específico para motivar isso, mas cerca de um ano depois da minha vinda pra cidade o teu avô foi embora da chácara. Só tomei conhecimento porque recebi um telefone dele. Internacional. Ele tava na Argentina. | |
| […] Aí ele sumiu por uns seis meses e quando telefonou de novo tava numa vila de pescadores em Santa Catarina chamada Garopaba. | |
| […] E não ligou mais. E eu acabei ficando preocupado. Uns meses depois, sem ter notícia dele, peguei minha moto num fim de semana, a Suzuki cem cilindradas que eu tinha na época, e fui até Garopaba. | |
| […] Tavam começando a pôr o calçamento de pedra nas primeiras ruas da vila dos pescadores e a praça nova tinha acabado de ficar pronta. Tinha casinhas e sitiozinhos espalhados ao redor da vila e foi num sitiozinho desses que encontrei teu avô, depois de fazer umas perguntas . Ah, o Gaudério, me disse um nativo qualquer lá. Aí fui atrás do Gaudério e descobri que teu avô tinha se enfiado numa espécie de modelo em miniatura da chácara da família, a uns quinhentos metros da praia. | |
| […] E então descobriram que o Gaudério era um prodígio da apneia. Ele sabia nadar, enfrentava rio bravo sem problema algum, mas não suspeitava do fôlego que possuía. Ti tinha que ter visto teu avô naqueles anos. Em sessenta e sete ele tava com quarenta e cinco ou quarenta e seis anos, ou quarenta e sete, me perdi na conta, mas era por aí e a saúde dele era uma coisa absurda. | |
| […] E por que mataram ele? | |
| Tô chegando lá. Calma tchê. Queria te dar o contexto. Porque essa história é boa, não é? É boa sim. Tu tinha que ter visto ele naqueles dias. Não é normal uma pessoa sair de um ambiente e cair em outro tão diferente e se adaptar dessa forma. | |
| Tu não tem uma foto do vô aí? Tu me mostrou uma vez. | |
| […] Levanta-se e vai até o banheiro. Compara o rosto da fotografia com o rosto que vê no espelho e sente um calafrio. Do nariz para cima, o rosto na fotografia é uma cópia mais morena e um pouco mais envelhecida do rosto do espelho. A única diferença digna de nota é a barba do avô, e apesar dela tem a sensação de estar vendo uma foto de si próprio. | |
| Quero ficar com essas foto, diz ao se reacomodar no sofá. | |
| […] Visitei teu avô em Garopaba uma segunda vez e foi a última. Era junho, nos dias da quermesse, que é um festão que fazem lá. Shows de música e dança, o povo se empanturrando de tainha, coisa e tal. Numa noite lá subiu ao palco um cantor nativista de Uruguaiana, gurizão de uns vinte e cinco anos, e teu avô logo torceu o nariz. Disse que conhecia o cara, tinha visto ele tocar lá pros lados da fronteira e era uma bosta. Eu lembro que gostei, ele tocava as cordas com força, fazia expressões de profundidade no meio das músicas e piadinhas ensaiadas entre uma e outra. O pai achava que ele era um palhaço e que tinha muita técnica e pouco sentimento. Podia ter ficado nisso, mas depois do show, quando o cantor tava tomando quentão numa barraquinha, um sujeito lá achou que seria uma boa ideia apresentar os dois, já que eram dois gaúchos de bombacha. Veio trazendo o cantor pelo braço até perto do pai e os dois logo se estranharam. Depois fiquei sabendo que era bem mais que uma questão de qualidade musical, mas de início eles fingiram que não se conheciam, em respeito ao sujeito empolgado que tava apresentando os dois. Mas esse cara fez a besteira de perguntar à queima-roupa pro pai se ele tinha gostado da música, e o pai era assim, perguntou vai ter resposta. A opinião sincera deixou o cantor enfurecido. Os dois começaram a bater boca e o pai mandou o cara virar a boca pra lá porque o bafo dele parecia bunda de graxaim morto. Várias pessoas ouviram isso e riram. O índio de Uruguaiana engrossou, é claro e daí pra puxar a faca foi um pulo. O cantor saiu fora e a discussão terminou, mas o negócio é que eu lembro da reação do povo que juntou ao redor. Não era só curiosidade pela briga, eles tavam olhando teu vô de lado, cochichando e balançando a cabeça. Percebi que entre uma visita e outra ele tinha se tornado uma figura malvista. Quer dizer, ninguém quer ter por perto uma gaúcho grosso que acha bonito mostrar a faca por causa de qualquer besteira. | |
| […] Fui embora e fiquei um tempão sem saber do pai […] e muitos meses depois recebi um telefonema de um delegado de Laguna dizendo que tinham assassinado ele. Teve um bailão dominical num salão qualquer lá da comunidade, um daquele, um daqueles aonde vai a cidade inteira. No auge da festança falta luz. Quando a luz volta, um minuto depois, tem um gaúcho deitado no meio do salão com uma poça de sangue em volta, dezenas e dezenas de facadas. A cidade matou ele. Foi o que o delegado me disse. Tava todo mundo lá, famílias completas, provavelmente até o padre. Apagaram a luz, ninguém viu nada. As pessoas não tinham medo do teu avô. Tinham ódio. | |
| […] Só que eu não acredito nessa história. | |
| Ué porque não? | |
| Porque não tinha corpo. | |
| Mas não era ele lá todo esfaqueado? | |
| Isso é o que me contaram. Nunca vi corpo. Quando aquele delegado me ligou a coisa já estava meio resolvida. Disseram que levaram semanas até me encontrar. Rastrearam via Taquara, alguém em Garopaba sabia que ele vinha de lá, acharam alguém que reconheceu a descrição do pai e sabia meu nome. Quando me ligaram ele já tava enterrado. | |
| Onde? | |
| Em Garopaba mesmo. No cemiteriozinho da vila dos pescadores. É uma pedra sem nada escrito, no fundo do terreno. | |
| […] Nunca pensou em abrir o túmulo? Deve ter um jeito permitido de fazer isso. | |
| Escuta eu nunca contei essa história pra ninguém. Tua mãe não sabe. Se tu perguntar ela vai dizer que teu avô desapareceu, porque é o que contei pra ela. Pra mim ele tinha mesmo desaparecido. Eu deixei pra lá. Nunca mais pensei nisso. Se tu acha horrível, azar o teu. O jeito como eu era naquela idade, a vida que tinha naquela época…seria difícil te fazer entender agora. |