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Jan24
I - Jardim das Tormentas. 1913
Manuel Pinto
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«Sentaram-nas nos joelhos e em deleitoso colóquio e bebendo vinhos generosos, que não eram dos mata-ratos fabricados em Cale ou Brachium Argentum, entretiveram o serão. O soldado galanteava a loira e seduzia a morena. Seus olhos diziam a uma: amo-te, e à outra: fosse eu rei, fazia-te rainha. E tão discretamente procedia que uma supunha: é a mim que ele ama! e a outra acreditava: está mesmo pelo beiço!
Cantavam já os galos e o alferes de cavalos propôs:
-- Vá; cada uma escolha o seu galã.
-- Eu quero o soldado! -- gritou uma.
-- Eu quero o soldado! -- exclamou outra.
Ficaram os dois interditos perante situação tão caprichosa. O soldadinho falou primeiro:
-- Não tem siso o que dizeis. Eu não me posso partir e, já que ambas me elegestes, nenhuma, nem ambas, posso eu querer. Se vos quisesse a ambas, ofenderia o meu alferes; se preferisse uma, magoaria a outra.
Foram-se por donde vieram, cismando o alferes:
-- A conquistar moças é homem, mas o seu desapego é de mulher; carambinha, minha Nossa Senhora, grande mistério há aqui!
Temerariamente se aventurou o alferes com o destacamento aos lugares mais ermos e selvagens. No meio dos bosques encontraram por fim os bandidos e rija peleja se travou. Nela caíram muitos combatentes dum lado e doutro e entre eles o soldadinho. Largou o alferes o mais aceso da luta para ampará-lo, pedindo-lhe ele em voz entrecortada:
-- Enterrem-me vestido como estou.
O oficial volveu com grande cólera e dor ao combate e, mal os bandidos foram desalojados, o seu primeiro cuidado foi conduzir a ordenança para uma cabana que ali havia. Ao examinar-lhe as feridas do colo, longe da ardilosa curiosidade que o perseguia, depararam-se-lhe, como uma peanha à medalha em que figurava D. Beltrão de rabona, calção e cabeleira de canudos, dois seios formosíssimos de donzela, como seriam pombos brancos e gémeos, comprimidos, comprimidos, mesmo agachadinhos de medo numa condessinha. E reconhecendo que tinha diante de si D. Floripes de Montalvo, sentiu a alma presa de grande comoção e enternecimento. E, a partir daquele instante, pôs-se a amá-la com delicado e recatado amor.» ...
(continua)
publicado às 20:14