09
Jan24
I - Jardim das Tormentas. 1913
Manuel Pinto
(...) «Fixou-se a data dos esponsais e D. Beltrão, chamando Floripes a capítulo, disse-lhe:
-- Menina, o teu casamento deve celebrar-se com pompa digna dos Montalvos. As nossas burras estão cheiinhas, louvores a Deus e a el-rei, que é seu almotacé. Na nobreza da nossa família, que remonta aos Trastâmaras, não há dente de linhagista que morda, seja ele o Figueiroa. Para grandes empresas grandes honras: vou-me à corte pedir a el-rei, nosso amo, que venha ser teu padrinho. Por certo se há-de lembrar do seu velho servidor e rico-homem.
Dito e feito. Em luxuosa equipagem partiu para a capital, recomendando que, durante a ausência, as portas não se abrissem nem a dona nem a conde -- vejam lá o precatado! -- nem mesmo a enfermo que de socorro necessitasse. Menina e aia prometeram cumprir à risca as disposições do fidalgo, tanto mais fácil que o solar era grande como uma vila e divertido como uma feira. E de facto nos primeiros dias não houve sequer tentação com que lutar. Ocorreu, porém, estando uma tarde à varanda, avistarem um pobrezinho -- como aqueles em que se disfarçava Nosso Senhor quando ia pelo mundo -- traulitando pela rua fora em suas muletas, além de manquitó, cortado de frio.
Quando as fisgou à barbacã, tanto gemeu, tanto chorou, que elas se compadeceram e, ainda que com pesar de transgredirem as ordens do senhor, o chamaram para dentro do paço. Acalentaram-no com um bom lume, umas gordas migas, e o homem entesou-se em sua corcova de velho lázaro. Pôs-se, então, a contar a sua história, que era o fadário simples e chão do bom pedinte. Era da Terra Quente e ia de jornada para Santa Eufêmia, onde o pão é alvo e as esmolas às portas ainda mais taludas que as abóboras em cima do telhado do tio Rodrigues. Mas tinha-se extraviado no caminho e há três dias que andava à toa, morto de fome e de enfado.
As falas dele eram doces e coloridas, e entretiveram-se a ouvi-lo por muito tempo, quer a dar traça de fidalgos e bons abades que medravam pelos mundos de Cristo anafados e virtuosos, quer a contar passos da sua vida, mais singelos, aliás, que dum santo-justo. Já noite cerrada, Floripes disse-lhe:
-- Olhe, aqui se lhe faz a cama e aqui dorme quentinho ao borralho. Não o mandamos sair por uma noite destas, Deus nos livre! Faz muito escuro e os lobos andam sobejos, mas há-de guardar segredo. O pai D. Beltrão, se o soubesse, era capaz de nos esfolar vivas.» ...
(continua)
publicado às 19:59