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Jan24

I - Jardim das Tormentas. 1913

Manuel Pinto

(...) «Acomodaram pois o pobrezinho ao braseiro e, satisfeitas daquela boa acção, foram deitar-se. Dormiam na mesma alcova, pudera, que a aia era muito medrosa. Ela caiu logo a dormir como pedra num poço. A donzelinha, essa, por mais que tentasse engodar o sono, não adormecia. Altas horas, vagueava a sua fantasia entre o noivo, ocupado dos calondros e quem sabe lá se a apalpar o patriotismo das moças da jorna, e o pai, baldeado nas liteiras a caminho da corte, sentiu estalar o soalho. Apurando o ouvido, percebeu que era alguém que penetrava no aposento a furta-passo. Bem quis erguer-se, bradar por socorro, mas faleceu-lhe o ânimo e a mais não atinou que a fingir-se adormecida. Um vulto surgiu, parou, errou, debruçou-se sobre ela, depois sobre Anastácia, suspendeu-se à escuta e, afinal, sumiu-se por onde viera. Quando abriu os olhos, já o resplendor duma luz branca se coava pelas salas silenciosas. Floripes afoitou-se a deixar-se escorregar da cama e, pé ante pé, foi abanar a aia pelo braço. Mas nem a safanão, nem a beliscão, nem a murro acordou a dorminhoca empedernida.

Então, enchendo-se de ânimo, saiu da alcova a ver o que se passava. Jesus! Na sala que deitava para o pomar a mão dum finado ardia derramando uma luz alva, fosforescente que nem mil vaga-lumes em cima duma couve troncha. E pela porta, aberta de par em par, um homem -- em que reconheceu o mendigo coxinho -- direito e membrudo apitava.

Apitou primeiro o grande ladrão, uma, duas vezes, a medo; à terceira vez, estridentemente. Lá fora apenas o vento zumbia, veloz e fino como balas disparadas de mosquete.

Apitou quarta vez, com tanta sanha, que a noite de lés a lés pareceu uma peça de chita negra a rasgar-se de cima a fundo. Ouviu-se no mesmo instante, lá para a mata, desencadear-se tropel formidável, ao passo que a silhueta do homem destacava no terreiro através das ombreiras altas. E Floripes -- que lera os romances da Madressilva -- deu um salto; em sua mão exaltada os ferrolhos correram expeditamente, depois a chave e a grossa tranca de carvalho que se recolhia no muro como em bainha.

  -- Desta estou eu salva! -- considerou. -- A porta chapeada de ferro não cederia a um aríete romano. Toca a chamar os criados...» ...

                                                                          (continua)

Firefly facts and photos

Imagem: khlungcenter/Shutterstock

Nótula:

«De onde vem o nome vaga-lume?
«Segundo o Dicionário Etimológico, a origem da palavra vaga-lume advém do português caga-lume ou caga-fogo, contudo, “com o passar do tempo, por questões de pudor e censura, trocou-se a letra ‘C’ por ‘V’. Assim, ‘vaga’ passou a representar o verbo ‘vagar’, que significa ‘andar sem rumo'”. Sendo assim, é possível definir que vaga-lume seria o mesmo que “luz que anda sem rumo”. “O lampejante bichinho é um eufemismo vivo, porque ‘lume’ significa ‘fogo’, ‘brilho’, ‘luz'”.
Deonísio da Silva, em seu livro “De onde vêm as palavras”, afirma que o escritor Machado de Assis foi quem aprovou a inserção da palavra em nosso vocabulário e dicionário, no século XIX.»
https://olhardigital.com.br/2022/12/30/ciencia-e-espaco/inseto-iluminado-descubra-a-razao-pela-qual-o-vaga-lume-se-acende/

publicado às 21:00