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Dez23
I - Jardim das Tormentas. 1913
Manuel Pinto
(...) «Mafalda, fazendo da mão pala, olhou o astro pequenino perdido nos abismos do firmamento. O cavaleiro reparava nela e na estrela.
-- Foge-me, foge-me da vista se a fito, D. Gil! -- proferiu ela.
-- Tornai a olhar, senhora...
Mafalda, erguendo outra vez os olhos, quedou imóvel sob a imensa umbela do firmamento, de olhos tão fitos que breve as estrelas lhe pareceram abelhas alvoroçadas. E voltou a dizer:
-- Foge-me sempre. Mas afigura-se à minha imaginação que é um gemido da Lira, ao passo que em volta as estrelinhas são risos de harmonia. Esconde-se, apaga-se e volve à superfície. Não sei porquê, lembra-me que esteja a soluçar.
-- Tal qual a alma, senhora?
-- Lá vai o Cisne... -- tornou Mafalda, pouco depois, quando ambos olhavam. -- Não parece que lhe toca com a asa? D. Gil, reparai...
Mafalda desviou o olhar e ouviu cantar os ralos, as rãs, a mágoa do rio, no festim do monte com o prado. Uma consolação infinita sucedia na terra à sentida necessidade das resignacões.
-- Mafalda! Mafalda! Onde estás tu? A estas horas? -- gritava-lhe do fundo da cerca D. Sol.
-- Estamos aqui, à beira do tanque. Aí vamos, tia.
-- A vossa estrela, ou a vossa alma, senhora -- interpôs Gil -- está entre o colo do Cisne e a poeira doirada da Lira. Está na vossa inclinação dar-lhe destino...
Mafalda sorriu e, como se quisesse dar a entender que urdia com Gil uma pastoral sem mais significação que soprar ao vento bule-bules, volveu de novo olhos para a estrela, alpendrando-os da lua, que vinha já à altura dos ciprestes. Depois, deixando cair a cabeça, pronunciou em voz presumida de faceta:
-- Então, meu senhor, que a leve o Cisne...
Gil ficou para o serão; e enquanto em torno, sobre as almofadas persas, as aias se entretinham em alegre folgar, pela primeira vez os olhos dele quiseram ser corajosos.
No momento de partir, sem que D. Sol desse conta, Mafalda pôs-lhe no sombrero uma pluma branca de neve, das mais airosas que vestem garças reais. E se não foi ao balcão, onde o luar fiava prata, vê-lo passar, é porque teve medo de que a sua audácia desse nas vistas. Sua tia D. Sol é que, desconfiada com o manejo, foi espreitar. Gil, metendo espora ao cavalo, desapareceu na azinhaga deserta, desprendidamente, como se atrás ficasse campo morto em que se lhe não atasse o novelo dos cuidados.
Mafalda, mais enervada quando se viu sozinha, voltou à sala para as rezas, mas se as ave-marias soavam nos seus lábios, caíam-lhe dos dedos, assim inertes e dormentes como no Inverno as lágrimas do caramelo, ao raiar do sol nos beirais.» ...
(continua)
publicado às 19:48