(...) «Assim decorreram semanas, e, novamente, bateu um recoveiro à aldraba com letra de D. Alejandro. D. Sol, com os óculos de oiro no bico do nariz, pôs-se a ler ombro a ombro com Mafalda. E, sôfrega em ser a primeira a dar a novidade, disse às criadas que se haviam aproximado:
  -- Boas notícias, filhas, boas notícias. O senhor de Santisteban está a governar uma praça. Quer-nos lá com vossa ama mal tenha ultimado os aprestos do alojamento. Oh! quem dera partir já!
D. Mafalda bateu palmas. Mas quando se desvaneceu o alvoroço veio para o balcão, os olhos a boiar no mistério da noite, vagos e tristes. Muito tempo ali esteve, agastando-se a ouvir o ribeiro que chorava. Dentro, o ofício divino ia sussurrando, morno e vagaroso, contra os pentágonos agressivos do tecto artesoado.
(...)
Voltou Gil de Tavera e, como D. Sol estivesse muito ocupada a fazer os seus inefáveis doces de beringela, sozinho com D. Mafalda se foi a tomar ar pela quinta. Era sobre a noite e, à friúra do céu, o cálido rescendor da terra evolava-se docemente. O sol descaía para trás dos montes de Guadarrama. Uma serena paz envolvia tudo; apenas, lá para os altos as calhandras assobiavam aos filhos, e o silêncio enchia-se com a toada da suave quezília maternal.
Calados se foram, um a par do outro, costeando o regato, que ria, saltava, cantava, desfranzindo com a sua ágil mobilidade o crepe nocturnal da terra. A certa altura, começou D. Mafalda, por desenfado, a fazer um ramalhete das flores que para ali haviam nascido à toa. Gil ia apanhar uma ou outra em lugar menos acessível, e Mafalda dispunha-as em gama, mais ou menos caprichosa, conforme o seu gosto de matiz.» ...
                                                           

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                                                               (continua)