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Dez23

I - Jardim das Tormentas. 1913

Manuel Pinto

(...) «O primeiro sol amarelecia as vidraças, quando chegou a Piedras Rojas. Já o grande portão de entrada se mostrava entreaberto, mas fechado que fosse, à voz de Gil de Tavera, naquela casa, corriam trancas e ferrolhos, os mais defesos. Ao prender o cavalo à argola da parede, acudiu o porteiro, obsequioso.
  -- Deixa; o recado é urgente, e dá-se depressa... -- e despediu escada acima, afoito, como senhor que entra tresnoitado em sua casa.
Sabido dos andanhos, sem ruído, que o abafavam, além do recato com que ia, as alcatifas, atravessou salas e corredores que o silêncio e a serapilheira da madrugada emorneciam. Dos baixos da habitação um chapejar breve -- servilheta, porventura, ao saltar da cama -- mas ali, no piso nobre, a paz era imperturbável, com D. Sol decerto a sonhar-se de companhia com Onze Mil Donzéis nas alamedas do Paraíso. Na alcova dos senhores de los Balbazes, a porta estava apenas encostada. Após breve suspensão, mais de escuta que de receio, Gil entrou. Brandamente, a luz frouxa do sul esclarecia o leito, o tal thalamus thalamorum do casal cristão, talhado para as luxúrias santificadas, que aparentava em sua talha e alto dossel uma séria imponência. Aspirou o aroma ambiencial dos aposentos, tépido e langoroso, em que se condensam todos os voláteis humores do corpo. Na cama distinguiu à claridade difusa a oblonga mancha leitosa e aproximou-se. Com a ardentia da sazão, Mafalda dormia nua.
Era uma onda cor de leite e luar e cada parte, surpreendida em abandono, a rosa dum roseiral.
Gil debruçou-se para a carne de maravilha e primeiro admirou os pés, os pés que cabiam numa casca de noz e eram arteiros a correr; depois, demorados, mais demorados que crispação de vaga que vem de longe, os olhos percorreram desde a canela, de linha evasiva e delicada, às pomas, níveas cabeças de pombos, que desarmariam o cutelo dum ciumento. Levada, talvez, nas asas de sonho ligeiro, Mafalda suspirou.
Gil detinha-se no seu êxtase, indeciso e tentado. Pareceu-lhe que a respiração dela era serena como devia ser a dos anjos quando se apagam os luzeiros do céu e Santa Maria manda deitar. Mal se lhe sentia a arfada, decerto mais branda que a brisa entre as pétalas duma papoila. Uma das tranças coleava-lhe pelo tronco e ia desaparecer na face interior das coxas como longa e negra serpente que procurasse refúgio entre colunas de mármore. E a boca era fonte farta de voluptuosidade, de orgulho e soberania para lá da vida e da morte, a quem a beijasse. E Gil pávido, jogando num impulso os escrúpulos e receios para trás das costas, poisou a boca na boca assombrosa. Pesada foi ela para Mafalda soltar um gemido de criança e reagir em sobressalto. E, a gemer, acordou de todo e viu-se nos braços dum homem, erguida no ar como uma pena. O arranco que então deu foi tão forte que obrigou o violentador a soltá-la.»
                                                                              (continua)

publicado às 18:17