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ENQUANTO AGONIZO (Primeira Parte)
O filme Fatal é baseado na novela que Philip Roth publicou logo depois da virada do milênio, O Animal Agonizante, título extraído de versos de Yeats (“Consome meu coração; febril de desejo / E acorrentado a um animal agonizante / Já não sabe o que é”).
Alguns anos antes, em O Teatro de Sabbath, ele nos dera seu “Rei Lear” (se tomarmos O Complexo de Portnoy como seu “Hamlet”), a história de um sessentão politicamente incorreto, acorrentado ao desejo sexual e escandalizando os padrões puritanos. Um livro esplêndido, majestoso, de quatrocentas páginas, em que o veneno retórico de Roth atingia o seu auge.
Uma das maneiras, portanto, de se abordar O Animal Agonizante é como uma espécie de reedição das endiabradas obsessões de Sabbath em ponto pequeno, em pouco mais de cem páginas. David Kepesh é (a essa altura da vida) um septuagenário que narra a uma interlocutora a avassaladora paixão sexual, oito anos antes, por uma de suas alunas num curso de literatura, a descendente de cubanos Consuela Castillo, de 24 anos, dona de um corpo opulento e grandioso. Aliás, é hábito de Kepesh (que já aparecera em O Professor de Desejo) aventuras com suas alunas, o que causa mal estar principalmente no filho, que não perdoa no pai essa sexualidade tão evidenciada e voraz (alguns diriam predatória): “Todos os anos dou um curso de catorze semanas, e durante todo esse tempo não tenho caso com nenhuma aluna. Então aplico um truque. É um truque honesto, às claras, lícito, mas é um truque assim mesmo. Terminado o exame final, lançadas as notas, dou uma festa no meu apartamento para os alunos (…) sempre há uma ou duas que, movidas pela curiosidade, resolvem transar com um homem da minha idade, mesmo que seja só uma vez, doidas para no dia seguinte contar tudo às amigas, que vão franzir a testa e perguntar: Mas e a pele dele? Ele não tinha um cheiro esquisito? E aquele cabelo branco comprido? E aquela papada? E a barriga dele? Você não ficou com nojo?”.
E assim temos uma reafirmação do potencial utópico e revolucionário (embora sob a égide individualista) dos anos 60 contrastando com a caretice e conservadorismo da vida contemporânea, onde até quem é alternativo quer ser à la mode, não quer parecer dançado ou esquisito, como na diatribe do narrador contra o casamento gay: “Se bem que agora até mesmo os gays querem se casar. Casar na igreja. Diante de duzentas, trezentas testemunhas. Espere só para ver o que vai acontecer com o Desejo que os levou a se tornarem gays. Eu esperava mais dessa gente, mas pelo visto também eles não têm senso de realidade (…) Os gays militantes querem se casar e querem ser aceitos abertamente pelo Exército. As duas instituições que eu odiava. E pelo mesmo motivo: a arregimentação”.
Um dos melhores momentos do livro é quando Kepesh relembra um grupo de moças daquela década de transformações, as Escrachadas, e seu comportamento explosivamente libertário e sem culpa, que ele atrela a uma maravilhosa digressão sobre a época colonial, em que um posto comercial, Merry Mount, escandalizava os puritanos dos arredores, “um antro de paganismo em plena Massachusets puritana, onde a Bíblia era lei”, cuja figura mais ilustre era um certo Thomas Morton, uma força da natureza, vitalista e transgressor, anatematizado pelo governador da próxima Plymouth, William Bradford, poderoso teólogo: “Tivemos que esperar trezentos anos para voltar a ouvir a voz de Thomas Morton, nos Estados Unidos… em Henry Miller. O choque entre Plymouth e Merry Mount, entre Bradford e Morton, entre ordem e desordem, o prenúncio colonial da convulsão nacional que viria a explodir trezentos e trinta anos depois, quando finalmente nasceu a América de Morton, com miscigenação e tudo… No conflito que vem se desenrolando desde o início, os puritanos eram os agentes da ordem e da virtude piedosa e da razão certa, e o outro lado era a desordem. Mas por que ordem e desordem? Por que Morton não é o grande teólogo da ausência de regras? Por que ele não é visto corretamente como o fundador da liberdade pessoal? Na teocracia puritana, todos tinham liberdade de fazer o bem; na Merry Mount de Morton, todos tinham liberdade, e ponto final”.


Outra maneira, ainda positiva, de encarar O Animal Agonizante é como um estudo sobre o envelhecimento e a finitude que honra a longa linhagem de donjuanismo que atravessa a literatura ocidental na Idade Moderna: “Não, você não consegue entender. A única coisa que você entende a respeito dos velhos quando você não é velho é que eles foram marcados pelo tempo. Mas compreender isso só tem o efeito de fixá-los no tempo deles, e assim você não compreende nada. Para aqueles que ainda não são velhos, ser velho significa ter sido. Porém ser velho significa também que, apesar e além de ter sido, você continua sendo. Esse ter sido ainda está cheio de vida. Você continua sendo, e a consciência de continuar sendo é tão avassaladora quanto a consciência de ter sido. Eis uma maneira de encarar a velhice: é a época da vida em que a consciência de que a sua vida está em jogo é apenas um fato cotidiano. É impossível não saber o fim que o aguarda em breve. O silêncio em que você vai mergulhar para sempre. Fora isso, tudo é tal como antes. Até não muito tempo atrás, existia uma maneira pré-fabricada de ser velho, tal como havia uma maneira pré-fabricada de ser jovem. Hoje em dia nenhuma das duas funciona mais… Não obstante, será que um homem de setenta anos de idade ainda deve continuar a envolver-se com o aspecto carnal da comédia humana? Ser desavergonhadamente um velho nada monástico, ainda suscetível às excitações humanas?… Talvez ainda seja uma afronta para muita gente você não se pautar pelo antigo relógio da vida. Tenho consciência de que não posso contar com o respeito virtuoso dos outros adultos. Mas o que é que eu posso fazer quando constato que, pelo menos no meu caso, nada, nada se aquieta?” E dessa forma, Consuela, que era a princípio apenas mais uma conquista, um item de colecionador, acorrenta um agonizante e agônico Kepesh a um Desejo obsessivo, permeado de ciúme infernal, até que ele comete um erro e oferece a chance a ela de escapulir… para reaparecer oito anos depois com uma notícia-bomba…
Entretanto, embora admire profundamente Roth e sua obra, há uma maneira menos entusiasmada, e até negativa, de encarar O Animal Agonizante. Já não é a primeira vez que eu constato que conforme vão envelhecendo, os escritores começam a perder o contato com a vida à sua volta, e sua obra passa a ser, digamos, toda escrita na defensiva, rarefazendo-se. Kepesh se apresenta como representante dos mais altos valores culturais (música erudita, literatura, ópera, pintura), e isso faz parte da sua aura donjuanesca. Ele jamais deixa de se ver como Professor (“o didatismo é o meu destino”) e isso parece empobrecer a sua visão do mundo e a sua narrativa. É incrível como uma história onde a obsessão pelo Outro (Consuela) é tão importante, que esse Outro apareça de forma tão caricata e puramente étnica (no caso, a ascendência cubana), que nunca tenhamos acesso ao seu mundo, às pessoas que o compõem, e isso aliás, se reflete em todos os níveis (com o filho, com as outras mulheres, com os conhecidos, com a cultura do final do milênio). E pior ainda: que essa incapacidade nunca seja problematizada ou venha à tona.
Atilado e arguto aos desvendar as polaridades morais que se digladiam no imaginário ético-teológico da América, Kepesh/Roth não é capaz de engendrar um mínimo vislumbre (a não ser sob o prisma caricatural) que seja da América de “trezentos e tantos anos” após Morton. E por isso não é à toa que Roth reedite a atmosfera de O Teatro de Sabbath, talvez a sua maior e mais significativa obra: talvez ele seja incapaz de fazer outra coisa, a essa altura do campeonato (o que é a possível razão de que seus livros recentes se contentem em imaginar uma América em que o nazismo tenha vencido e outros temas já velhos, já gastos, já digeridos pela imaginação ocidental). Eros agoniza, e o escritor também.
(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em oito de novembro de 2008, com o título “O desejo e a morte”)
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