Ninguém está nu, janela tem cortina, casa tem parede, fruta tem casca, corpo tem roupa, rosto tem máscara Sibélia Zanon O primeiro homem nu que vi foi no teatro. Eu era criança e nem ao menos me lembro da peça. Mas lembro bem da minha mãe, num tom crítico, avaliando a necessidade de tamanha oferta de pele numa apresentação infantil. O teatro sempre querendo abrir as cortinas e arrancar os véus. Abri a cortina e parecia que o dia não tinha amanhecido. A noite se esticava preguiçosa pela manhã. Um guarda-chuva preto caminhava entre os carros, mas as janelas do sobrado quebravam a monocromia da paisagem com sua arquitetura de claridades. As cortinas estavam fechadas, mas eram finas e amarelas. E foi por essa transparência que assisti ao vulto de um abraço. Na escuridão das coisas, o abraço promove um rastro solar. Janela tem cortina, casa tem parede, fruta tem casca, corpo tem roupa, rosto tem máscara, mente tem discernimento. Ninguém está nu. Só o homem no teatro. Antes da rua de casa ganhar luzes artificiais, eu gostava de dormir com janelas e cortinas abertas. Deixar as histórias de dentro escaparem para a noite de fora. Deixar a brisa de fora ser oxigênio do sonho. Abrir a cortina e acompanhar a lua passeando às margens do abraço. Quando criança, a curiosidade era feia, hoje já sei que ela é bonita. Mergulhar nas profundezas de uma sapopemba, de um líquen, de uma pessoa. Tenho curiosidade por gente, quando a confiança abre fresta para a intimidade. Caem as cortinas e quase se pode tocar o cerne do ser. O outro tocável, o poder da vulnerabilidade. Perigoso conhecer gente assim de perto, temem alguns. Mas o perigo é precipício que faz o coração bater mais forte. Intimidade é presente bonito porque janela tem cortina, casa tem parede, fruta tem casca, corpo tem roupa, rosto tem máscara, mente tem discernimento. Ninguém está nu. Só o homem no teatro. Sibélia Zanon é jornalista e escritora, autora de Espiando pela fresta.