Precisamos deixar os armários mais leves. Esvaziar os cabides. Nós não precisamos de tudo isso. Certamente que não. É preciso se desfazer das inúmeras camadas. Revelar-se mais. Mais carne, mais sangue, mais humano. Eu sei que dá medo. Mas é preciso tentar

Bem no início, ninguém precisa deles já que não há nada a pendurar. O corpo, coberto de pele, esse órgão gigante tão desprestigiado, fica envolto em líquido e membranas, bem seguro e, por que não dizer, confortável. Belo, pulsante, como só a natureza consegue ser. Não há por que cobrir ou esconder. Ainda não existe a vergonha nem a vaidade. Apenas vida. Somente depois, ao rompermos com força e vontade essa “película protetora”, fazendo jorrar o líquido que durante meses nos nutriu e defendeu, que aparece essa estranha necessidade de “cobertura”. Cobrir a pele, as “vergonhas”, os excrementos. Após o choque inicial com a realidade humana e mundana, o pavor da descoberta de todos seus agentes ofensores de uma só vez na nossa cara – ou barriga – como luz, calor (pensem no que passamos esses últimos dias aqui no Sudeste brasileiro), ruídos, peso, gases, fome, coceira, atrito (já pensou a sensação de uma mão estranha, com luva ou não, cabeluda ou não, na nossa pele tão sensível), a gente já é coberto em panos e embrulhados como se fôssemos um pacote de delivery para o qual não pagaram o frete express…

Uma vez em casa, talvez existam algumas coisas penduradas em cabides no armário, mas a grande maioria deve ficar numa gaveta. Cuidadosamente dobrada. Ainda não existem paletós ou vestidos de festa. Talvez a famosa “camisa de pagão”, em cambraia de linho, para os mais abastados. Camisa de pagão… acho esse nome tão estranho. A criança mal nasceu e tem que “pagar” o que meu Deus? E os sinônimos então? Pessoa herege, descrente, ímpia. Como assim? Um bebê? Não, não pode. Esse é justamente o momento em que toda crença ainda é possível, que ainda não há “pecado”, nem sujeira, (a não ser um cocô ou xixi que, obviamente, precisam acontecer). Herege, ímpio ou pecador, nós seremos depois, quando aqueles cabides até então vazios começarem a se preencher. Com nossas fantasias ou disfarces.

Quanto menos tempo e atenção esses pais podem oferecer aos filhos, muito provavelmente mais cabides serão necessários. Foto: Reprodução.

O tempo vai passando e aqueles cabides começam a ser cada vez mais utilizados. Vestidos, camisas, saias, bermudas, jaquetas, de diversos tecidos e cores. A quantidade? Vai depender do gosto, do clima, da vaidade e do poder aquisitivo de mães e pais. Ah sim, tem outro fator. Quanto menos tempo e atenção esses pais podem oferecer aos filhos, muito provavelmente mais cabides serão necessários. Como se a quantidade de camisas e calças de marca (principalmente de marcas estrangeiras e famosas) fosse um fator compensador da falta de carinho. Não vou poder comparecer à sua apresentação de balé? Veja, trago aqui uma bomber da Osklen para você! Tenho reunião com aquele cliente importante no mesmo horário do seu jogo de futebol? Olhe! Um corta vento da Nike! Lançamento em NY!

Frustações, decepções, rejeições também costumam abarrotar armários e entupir cabides. Levamos um pé na bunda? Do bofe ou do chefe? Um copo de whisky, um frontal ou Rivotril, e uma bela passada no shopping. Enchemos sacolas e mais sacolas com mil supérfluos e coisas que jamais vamos usar, (e que talvez a gente nem consiga pagar), apenas pela sensação de prazer momentâneo que aquele “eu posso” nos traz. Como se a calça nova nos fizesse uma pessoa melhor. Talvez não seria esse o momento para a gente aproveitar e nos despir de toda a vaidade, olhar para o nosso umbigo, pelado e com dobrinhas, e procurar o que, de fato, faz sentido nesse “armário”? Que roupa ainda nos serve. E se desfazer de tudo aquilo que não nos pertence mais. Um blazer animal print, uma saia da última estação, um paletó de veludo, umas fotos com amigos que você já nem sabe o nome, a fivela de cabelo para a franja que você nunca mais teve, a carta de um amor não correspondido, o para-quedas, o para-raios, os guarda-copos, os óculos escuros, os canivetes, os mapas, as bússolas, as esteiras, as redes, as figas, as vigas, os pilares.

Precisamos deixar os armários mais leves. Esvaziar os cabides. Nós não precisamos de tudo isso. Certamente que não. É preciso se desfazer das inúmeras camadas. Revelar-se mais. Mais carne, mais sangue, mais humano. Eu sei que dá medo. Mas é preciso tentar.

Não será um armário repleto de cabides lotados de roupas de moda ou de marca que farão a diferença no final. No fim de tudo, no finzinho mesmo, o que importa não é o que fica nos cabides. Mas o que deixamos para além daqueles ganchos. O que deixamos de histórias penduradas naquilo e naqueles que estão fora do armário. Nossas histórias. Lembranças. Que não precisam de nenhuma vestimenta. Apenas da memória. E de uma certa dose de carinho.

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*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP

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Publicado por André Vieira

Jornalista gaiato e poeta-menor. Escrevo pequenas notas e algumas reportagens quando a missão vem à baila e engano — bem — na arte milenar do hai-cai fixo. Não gosto que cebolas toquem no purê de batatas. E sim, amigos, é bolacha e não bixxcoito. Ver todos os posts de André Vieira