Desapega, desapega!
desapego, minimalismo, nostalgia, crescimento pessoal, autoconhecimento
E que tal abrir mão até mesmo daqueles “amigos” antigos, que você insiste em manter, mas que não têm absolutamente mais nada a ver com você? Deixe que eles sigam seu rumo. E siga o seu. Não tenha medo. Maria Paula Curto* Não sei por que insistimos em guardar tanta tranqueira ao longo da vida. Parece uma vontade de manter no objeto desbotado e empoeirado a lembrança do que já fomos, como se ele pudesse nos teletransportar para aquele momento do passado onde a gente acha que foi feliz. E digo acha, porque se a gente vasculhar bem lá no fundo da gaveta, ou da memória, vamos perceber que a aparência de felicidade é muito mais fruto do verniz da nossa nostalgia do que a evidência do fato. Fora o estado em que esses objetos costumam ficar após anos guardados e esquecidos num cantinho qualquer do quarto de hóspedes ou atrás da caixa de ferramentas – que você nunca usou, mas que insiste em manter para uma eventual necessidade – embaixo da escada. Amarelados, cobertos de poeira ou de ferrugem, faltando pedaços, como talvez estejam as nossas próprias memórias. Ou pior, como talvez estejamos nós mesmos, principalmente após um ano e meio enclausurados e com medo de um pequeno ser invisível que nos lembra a todo instante da nossa finitude. “Se a gente vasculhar bem lá no fundo da gaveta, ou da memória, vamos perceber que a aparência de felicidade é muito mais fruto do verniz da nossa nostalgia do que a evidência do fato.” /Foto Acervo pessoal Devíamos aprender a desapegar, a fazer um exercício de limpeza de armários e gavetas – do quarto, da sala, da alma – a cada seis meses, pelo menos. Doar ou se desfazer daquilo que não serve mais, daquilo que estragou ou que já ficou obsoleto. Sei que é difícil abrir mão daquele bilhetinho tão gentil que você recebeu no amigo oculto da firma em 2014, mas você já até mudou de empresa e nem lembra mais do telefone do tal amigo, agora mais oculto do que nunca… Jogue fora também os seus boletins do colégio (mesmo que eles sejam o orgulho da mamãe) e faça uma doação dos livros da faculdade ou das apostilas do cursinho, eles serão mais úteis para aqueles que ainda estão batalhando pelo tal do futuro melhor. E que tal abrir mão até mesmo daqueles “amigos” antigos, que você insiste em manter, mas que não têm absolutamente mais nada a ver com você? Deixe que eles sigam seu rumo. E siga o seu. Não tenha medo. Talvez você descubra que será ainda mais libertador para ele do que para você. Inclusive, devo dizer, há grandes chances de você se perguntar: por que eu não fiz isso antes? E ainda ficar com aquela “leve impressão de que já foi tarde”, como diria Chico. Tenha por perto apenas o estritamente necessário. Você. E aquilo e aqueles que ainda façam sentido. Precisamos abrir espaço para o novo. Um novo casaco (chega de tentar disfarçar as bolinhas do suéter preferido do inverno de 2010, né?), um novo jeans, um novo sapato. A marca de joanete no mocassim de couro pode até ser confortável, mas não vai te favorecer em nada numa reunião presencial (em breve ela irá acontecer, se Deus e a vacina permitirem…). Abrir caminho para novas possibilidades, um novo estilo de vida, novos amigos, novos amores. Deixar de lado aquela rotina insossa da casa para o trabalho, do trabalho para casa e aventurar-se no desconhecido. Sem bússola. Sem roteiro predefinido. Nem certificado de garantia. Por que não? ” Nem adianta dizer que seu cartão fidelidade é black e que você pode até comprar e trazer outra mala na volta, sem pagar multa, pois a vida não está nem aí para o nível de estrelas do seu cartão, ela simplesmente não te permite adquirir um novo corpo..” /Foto Acervo pessoal Quanto mais bugiganga a gente guarda, mais difícil de caminhar, de seguir em frente. Fica tudo muito pesado. É preciso ter mais leveza. Deixar algum espaço a ser preenchido. Igual bagagem em viagem de avião. Se a gente já parte com a mala cheia, como vamos conseguir trazer alguma lembrancinha que seja do lugar de destino? Pagando multa por excesso de peso? Nem adianta dizer que seu cartão fidelidade é black e que você pode até comprar e trazer outra mala na volta, sem pagar multa, pois a vida não está nem aí para o nível de estrelas do seu cartão, ela simplesmente não te permite adquirir um novo corpo. Muito menos uma nova alma. É com essa dupla de agora – corpo e alma – que a gente segue a viagem inteira. Talvez com alguma diferença de tamanho, principalmente na região abdominal, no meu caso, mas sem direito a reposição total. Então, o jeito é jogar fora os excessos, libertar-se de alguns quilos extras de passado e deixar o futuro entrar. Desapega, desapega! *Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP.
Texto originalmente publicado em Revista Fina