Aliás, malucos já estamos todos nós ao não nos permitir viver desse jeito. Ou você ainda duvida que isso é loucura? Acho que não.

Maria Paula Curto *

Acabamos de passar pela Semana Santa, época de renascimento, bacalhau e o famigerado ovo de Páscoa (que, cá para nós, nunca esteve tão caro. Após comprar ovo com fones de ouvido, bichinhos de pelúcia, sandálias de praia e o que mais o povo inventa para tornar aquilo uma “eterna surpresa”, decretei que, esse ano, ficaríamos com o básico e ainda com a marca do supermercado, para a conta ficar próxima do razoável…), um momento propício para se pensar em uma limpeza geral. E aqui não me refiro à dieta para eliminar as calorias certamente adquiridas com tanto chocolate, vinho e bolinhos, mas para repensarmos como estamos levando a vida. Parece papo de autoajuda, mas às vezes, parar um instante para analisarmos a forma que estamos tocando o barco é bem necessário. E nem tente me enganar dizendo que você está indo de vento em popa, pois eu sei bem que você, assim como eu e a torcida do Flamengo e do Timão, está como um ingresso em show da Bethânia: completamente esgotado.

De tanta coisa que estamos fazendo. É tudo ao mesmo tempo agora, ou melhor, para ontem, tipo tirar o gato de cima do computador que, nessa altura, já mandou vários “djasd dsklfjaskl oilrufeknf” para seu chefe. Foto: Acervo da autora.

Também não adianta tentar me convencer que é normal, que essa aceleração máxima é o novo ritmo do mundo, porque, a continuar nessa toada, você, eu e os outros bilhões de seres esgotados desse planeta não vamos durar até a próxima década. Não mesmo. A gente implode antes. De tanta coisa que estamos fazendo. É tudo ao mesmo tempo agora, ou melhor, para ontem. A gente acorda mais cedo para tentar fazer alguma ginástica (o médico falou que se não fortalecer os músculos, aquela dor na lombar não vai embora nem com reza forte); aproveita para ouvir aquele podcast que nos recomendaram mantendo um certo e frágil equilíbrio na esteira; responde alguns e-mails enquanto o chuveiro esquenta; engole um café com torradas para não ficar com o estômago vazio; toca vinte e cinco reuniões por dia, dos mais diferentes temas, sempre com o celular ao lado, para responder as 789 mensagens dos 59 grupos de Whatsapp dos quais somos membros (mas nem sempre ativos); paga conta pelo aplicativo do celular no banheiro (nem o sagrado momento do número 2 está sendo preservado ultimamente…); fala com os filhos rapidamente após botar o microfone no mudo (e quando volta para a reunião, perdeu o tema mais importante e começa a falar com o microfone ainda desligado e ouve a frase mais usada na pandemia: “tá no mudo!!”); almoça correndo em frente ao computador mesmo, para não perder tempo, agora com a câmera também desligada – afinal, é deselegante almoçar na frente do povo da reunião – e quando a gente religa a tal da câmera, torce muito para que não exista nenhum pedaço de couve ou feijão no dente (pelo menos não nos da frente), já que não deu tempo de escovar os dentes; reclama com o cachorro para ele parar de latir (“mais tarde mamãe dá atenção”. Só que não); tira o gato de cima do computador que, nessa altura, já mandou vários “djasd dsklfjaskl oilrufeknf” para seu chefe; derruba a água no tapete; esquece de pegar mais água (e acha bom, pois a bexiga está estourando, e a gente ainda nem terminou a planilha para a próxima reunião); faz a lista de To dos para o dia seguinte (nessa altura do campeonato já está escuro e a gente percebe que não vai dar tempo de concluir tudo hoje); vai jantar um lanchinho rápido; liga a TV para ver alguma serie ou algo leve (a gente quer se divertir. Será?), não assiste nem 10 minutos e começa a dar cabeçada no sofá; resolve ir dormir; pega aquele livro que está todo mundo comentando super bem, deita na cama, lê meia dúzia de linhas e acaba dormindo com o livro na cara, mas acorda umas 3h da manhã montando planilhas e powerpoints mentais e lembrando que esqueceu de enviar o link da reunião de amanhã para o cliente ou de comprar a manteiga que tinha acabado e só consegue pegar no sono de volta quando o celular apita avisando que vai começar tudo de novo.

Estou exagerando? Atire o primeiro mouse, ou melhor, a primeira pedra quem nunca teve um dia parecido. A pergunta que fica não é se estamos desse jeito – pois eu sei que, em maior ou menor grau, estamos todos enlouquecidos assim – mas como fazer para sair desse círculo vicioso. Ok, eu sei que a gente tem que trabalhar e pagar boletos, mas será que precisa ser dessa forma? Você não usa a cueca por cima da calça nem eu tenho braceletes encantados ou avião invisível, ou seja, não somos super heróis. Somos seres humanos. A gente não vai dar conta disso tudo. E não podemos sofrer por isso. Não é justo. Uma solução possível? Que tal começarmos com uma simples palavrinha, de apenas uma sílaba e com somente três letras: “NÃO”. Que tal fazermos esse exercício: começarmos a usar mais o tal do não. O simples, direto e objetivo “não”. Não. Não.  Eu não posso agora. Não, eu preciso de mais tempo para fazer isso. Não, eu tenho outro compromisso no mesmo horário. Não, eu preciso almoçar. Não, eu preciso conversar com meus filhos. Não, eu vou viajar no feriado. Não, eu vou mesmo tirar férias, é meu direito. Não, eu preciso descansar. Não, eu preciso ficar sozinho. Não, eu preciso respirar. Não, eu preciso viver.

Eu sei que não será fácil. Mas a gente precisa tentar. Caso contrário, nós não vamos conseguir sair vivos dessa engrenagem maluca. Foto: Acervo da autora.

Eu sei que não será fácil. Mas a gente precisa tentar. Caso contrário, nós não vamos conseguir sair vivos dessa engrenagem maluca. Aliás, malucos já estamos todos nós ao não nos permitir viver desse jeito. Ou você ainda duvida que isso é loucura? Acho que não.

Comece agora ou pode ser tarde demais. O tempo voa – esse sim, é muito mais rápido do que a gente possa imaginar – e infelizmente não pode ser acumulado em poupança ou CDB para ser usado depois. Depois da reunião, depois da live, depois da aposentadoria, depois da vida… A não ser que você, de fato, acredite em ressureição ou vida após a morte, é melhor começar já. Levanta da cadeira, estica os braços e as pernas, relaxa o pescoço e repete comigo: NÃO!!!  Vai, tenta. De verdade. Depois, não adianta reclamar e dizer que eu não te avisei…

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP.