No final, independentemente da quantidade de carne, músculos, ossos ou gordura, tudo caberá em uma caixa. Qual o peso de um ser? Um poodle é leve, você poderia responder. Agora, tenta viver sem aquela lambida matinal, aquela carinha de “eu aprontei, mas sou tão fofinho” e olhar para os pés vazios da cama onde ele costumava dormir. Essa saudade pesa toneladas. Um bebê? Quatro quilos é bastante. Cinco, então, uma enormidade. Já menos de dois quilos é perigoso. Tem que ficar na maternidade, em observação. Sinal de prematuridade. De que precisa de mais. Mais tempo, mais peso, mais vida. Não dá para prosseguir tão leve. E um corpo gordo? Pesa muito? Quilos e quilos de gordura cultivadas anos a fio em trocentos churrascos com a turma. 130kg é muito? Será? Quanto será que esse corpo pesa quando ele simplesmente pega a sua mão e diz: “Vai. Você consegue! Se cair, estou por aqui”. E você vai, tendo a certeza daquele colo gordinho que te ampara e acolhe. Qual o peso dessa segurança? Que se espalha sem deixar marcas. Não restam pegadas, nem vestígios. Talvez, fique um punhado de histórias. E, tomara, algumas saudades. Foto: Reprodução Ou, se esse corpo enorme, barrigudo, fora dos padrões estéticos ditos normais, faz você flutuar, rodopiando na praça, dançando tanta dança que a vizinhança toda despertou… Que peso ele tem para você? Eu, por exemplo, adoraria arrastá-lo comigo nesse balé infinito que, faz algum tempo, desisti de encontrar. E o meu corpo? 70 quilos não é pouca coisa. Daria para encolher bastante. Na papada, na barriga, nas coxas. Às vezes, é bem difícil de carregar. Os pés doem. Subir uma escada é tarefa inglória. Os joelhos, coitados, já pediram arrego faz tempo. Não estão aguentando tanto peso. E peso flácido, pois se os joelhos e pés reclamam, o colágeno me abandonou há séculos. Com músculos frouxos, a coluna se entorta. E dói. De montão. Fica pesada, muito pesada. Cada dia mais difícil de levar. De caminhar. De passar. Sabe o que é mais engraçado nessa história dos pesos e das medidas? É que no final, independentemente da quantidade de carne, músculos, ossos ou gordura, tudo caberá em uma caixa. Bem pequenininha. Menor que mala de bordo. Ou bolsa tiracolo. Seremos apenas pó. E nos damos conta da insustentável leveza do nosso ser. Da rapidez dessa transformação do pó ao pó. Que se espalha sem deixar marcas. Não restam pegadas, nem vestígios. Talvez, fique um punhado de histórias. E, tomara, algumas saudades. *Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP