Quando me foi feito o desafio de escrever para o Concurso "O retângulo", comecei vários textos. Depois tive de escolher apenas um. Este que aqui replico, é um texto um pouco triste, mas ao mesmo tempo, poderia ser a base para uma escrita diferente. Talvez um dia ainda lhe pegue e desenvolva a história aqui começada. Neste momento, falta-me tempo para tal tarefa.
"Ainda me lembro quando aqui cheguei pela primeira vez. A sensação de frio invadiu-me os pulmões assim que inspirei. O avião que me trouxe, fez um ronco ao levantar voo novamente e partiu para outras paragens bem mais quentes. No fundo, era uma miúda e sabia apenas que o meu pai me tinha trazido pela mão até ali. Passaram quase cinquenta anos, mas ainda me lembro da primeira noite como se fosse ontem.
Na altura, com apenas sete anos, senti-me muito sozinha naquele buraco escavado no meio das montanhas. Na primeira noite, dormimos num barracão mesmo ali na pequena pista que servia para de quando em vez aterrarem um ou outro avião. Para mim, tudo o que ali chegava era avião, fosse de que tamanho fosse, com seis anos tudo nos parece enorme.
No dia seguinte, fomos conhecer a aldeia para onde iríamos. Saímos de manhã bem cedo, num todo-o-terreno, que saltava a cada buraco do caminho e que cheirava horrivelmente mal. O meu pai era médico. Achava que isso era bom, mas ali chegada comecei a duvidar. Na bagagem trouxe muita coisa, coisas boas e bonitas, as minhas bonecas até, mas, naquela manhã, no carro, apenas razia a roupa do corpo, um casaco de malha e uma boneca que a minha mãe me tinha dado quando fiz três anos. Alguns meses depois faleceu, e eu nunca mais larguei aquela boneca tão especial.
Adormeci no banco de trás do carro, o cheiro e os balanços incomodavam-me e lembro-me de ter vomitado uma e outra vez. O meu pai, atento como sempre, parava o carro e esfriava-me a testa com um pano molhado em água fria. De súbito, um solavanco maior... e não me lembro de mais nada. Quando acordei, estava numa cama, num quarto de hospital. Tudo limpo à minha volta. Lembro-me que o cheiro a desinfetante se entranhava pelas narinas. Tinha o corpo dormente e só depois de alguns minutos e de me ter tentado levantar, me apercebi que me faltava a perna direita. Tinha-a perdido ao nível do joelho.
Não sei o que se passou naquele dia, nem o que aconteceu a quem ia connosco no carro. Mais tarde, contaram-me que tinhamos passado por cima de uma mina. Na altura nem sabia o que isso era. Tinha dores e queria o meu pai e a minha boneca. Gritei pela minha mamã, até que uma enfermeira me veio ver e me trouxe água e um xarope horrível, mas que me fez quase adormecer novamente. A minha boneca, trouxe-ma o meu pai, quando dias depois me veio buscar. O meu pai era um homem alto, loiro e de pele clara. Os olhos eram azuis mas às vezes, pareciam mais cinzentos que o humor dele. Eu herdei o cabelo e os olhos castanhos da minha mãe. A minha pele era também mais morena que a dele.
Mas deixem-me falar-vos de como foi a minha vida a partir daquele dia. Tinham pasado algumas semanas desde o acidente quando regressamos à nossa terra natal. Uma revolução tinha acontecido e nada estava como antes. Parecia que eu tinha adormecido e acordado noutra época, noutro país.
Ficamos numa casa dada pelo governo, num bairro de habitação social. Cada casa tinha apenas um piso, uma vez que ali ficavam pessoas vítimas da guerra, que tinham mobilidade reduzida assim como eu. Logo que foi medicamente possível, recebi uma prótese que me permitiu andar como as outras crianças. Por causa do meu problema de saúde, não fui logo para a escola. Duas vezes por semana vinha uma professora a minha casa. Ensinou-me a ler e a escrever. Nos restantes dias tinha fisioterapia e natação. O bairo onde eu vivia tinha um parque para onde eu adorava ir. Todos os dias, o meu pai me levava lá. Ali podia brincar com outras meninas da minha idade. Não podia correr atrás delas, mas levava as minhas bonecas e fazia piqueniques com elas.
Aos dez anos, fui pela primeira vez à escola. entrei no quinto ano, em pé de igualdade com as minhas colegas de turma. Podiamos escolher a escola onde queriamos estudar - uma inovação naquele tempo - e faziamos os nossos próprios horários, escolhendo blocos de disciplinas opcionais, além das obrigatórias. Desde logo, conquistávamos o direito à nossa independência, nas escolhas que faziamos, apoiados por uma equipa de psicólogos e professores, que nos encaminhavam nas nossas escolhas. Escolhi Espanhol, Ciências Fisico-Quimicas e Anatomia. Português, Matemática, Inglês e Francês eram obrigatórias. Adorava linguas estrangeiras e queria viajar pelo mundo, mas também queria ser médica como o meu pai era. Ao fim de três meses, tinha-me feito já o primeiro ano de anatomia e inscrevi-me para o segundo ano. Para mim, o corpo humano não tinha segredos, sabia os nomes pomposamente na ponta da língua. No sétimo ano, troquei o francês pelo alemão. Devorava livros na biblioteca municipal e no jardim sempre que o tempo me permitia estar cá fora até tarde.
Em casa, à hora do jantar, o meu pai falava de como era antigamente. Como os políticos dominavam as vontades e enganavam milhões com a sua conversa da treta. Agora, eram os humanistas que rasgavam os caminhos do povo e nos colocavam novamente como um país de primeira linha. Aquilo que tinhamos conseguido os descobrimentos com os homens do mar, conseguiamos agora com os homens das letras e das ciências. Ser português era ser reconhecido em todo o lado. Em Portugal investia-se na cultura. Num país abalado por uma guerra civil que tinha derrubado barreiras, invisíveis, mas presentes, houve um grupo de pessoas que lutou para que os jovens voltassem à escola e para que os adultos tivessem trabalho. Investiram nas matérias primas e nas capacidades produtivas. Abriram-se portas na inovação e lançamo-nos na microbiologia e na pesquisa de curas para as doenças oncológicas e neurológicas. Afinal. tinhamos cá os grandes estudiosos e entendidos dessas áreas, estavam era cobertos de pó nas muitas prateleiras para onde se atiravam os cérebros do nosso país.
O governo como era no tempo do meu pai, foi deitado abaixo. As grandes empresas foram derrubadas e qauis ervas daninhas que teimosamente teimam em crescer, foram efetivamente arrancadas do bloco do poder económico e político e deixaram a luz entrar nas pequenas empresas e nos negócios familiares que à muito tinham perecido. A luz que entrou na economia da nação levou a que novos valores prosperassem e, um país que era pobre, tornou-se depressa um local de fazedores. Foram presos os que enchiam os bolsos à conta dos trabalhadores e esses ganharam o poder a que o trabalho das mãos lhes deu o direito. Fazer para ter era agora o lem ada nação. Morreram os modelos políticos e com eles dissipou-se a crise. Não foi fácil a transição, mas foi possível vê-la medrar tal como eu medrei durante estes anos.
Cresci no meio da mudança, vi cairem governos, vi o povo levantar-se e lutar por um país que era seu e que de novo lhe coube no direito. Com desasseis anos, fui para Londres durante um mês fazer um curso intensivo de Inglês, numa vertente mais profissionl e empresarial. As fronteiras tinham sido novamente fechadas à livre circulação, para evitar os abusos do passado, mas para quem mostrava querer estudar e progredir na educação ou na carreira, as portas abriam-se de par em par. Aos dezoito anos, rumei para Angola. Ali abri um consultório. Passados alguns anos~, o meu pai reformou-se, fechou o consultório que tinha aberto em Lisboa e veio morar comigo.
O meu pai morreu dois anos depois de termos regressado a Portugal e deixou-me a braços com uma nova e desesperante tarefa: criar ali as oportunidades que o meu país me tinha dado a mim. Lutei por isso, dia após dia, colocando pedra sobre pedra e sendo quem sou: uma pessoa simples. Nunca enriqueci com a medicina.
Hoje regressei ao meu pais. O pequeno pais que quis crescer do meio das ervas europeias e romper as amarras. Um país que ao mesmo tempo que criou laços, floresceu na industria e investiu nas suas reservas naturais. Tenho cinquenta e seis anos e corre o ano de 2042. Somos um país livre e, embora não sejamos ricos, temos uma boa moeda de troca. O escudo - sim voltámos ao velhinho escudo - é reconhecido em todo o mundo e luta nas bolsas lado a lado com o dólar ou o franco. O euro morreu, quando morreram também as grandes potências. A América sofreu diversos reveses e foi atacada por diversas vezes. Ergueu-se e caiu várias vezes, nunca deixando de ser a potência que sempre foi, mas tendo de baixar a cabeça e assumir que, afinal, não dominava o mundo. A Europa dividiu-se durante uns anos, houve conflitos nas ruas, o povo reinvindicou os seus direitos. Muitos morreram a lutar, principalmente na Alemanha, em França e em Espanha. No meio da viragem, descobriram-se amigos e zangaram-se as comadres. O povo votou contra a União Europeia. Cada estado passou a ser independente.
No nosso cantinho, unimo-nos à vizinha Espanha e foram criadas empresa, escolas conjuntas e muitos postos de trabalho. A mobilidade entre os dois países revelou-se uma mais valia. Valia mais gerir do que mandar e após essa conclusão, o povo criou juntas de apoio que devolveram ações de reconstrução nos bairros e nas freguesias a que pertenciam. Foram impostas metas que, com o apoio da população foram atingidas, mas mais ninguém conseguiu vir de fora impor as suas normas e encher os bolsos à conta do fado do Zé povinho. Ergueram-se bandeiras de revolta e após alguns anos de muita luta, o povo ganhou para si a autonomia necessária à criação de estatutos municipais próprios. Não era que se separasse o país em quintais, mas foi esta divisão que permitiu que as pessoas se unissem e tentassem fazer do seu pedaço o melhor local para se viver. Aos poucos, recuperaram-se habitações e deram-se lares a pessoas mais desfavorecidas. Não se deu o peixe logo para a mão: ensinou-se a fazer a cana e a pescar. Hoje sei que, como deficiente de guerra, uma vítima de um conflito que já nem era meu, tenho direito a uma reforma, Mas a verdadeira luta, também a travei eu, lutando com palavras, ações e gestos, ao lado dos que me eram queridos.
O meu pai dizia-me sempre: estuda filha para seres alguém na vida. Luta pelo teu povo que te protege hoje e pelo país que te acolhe. Não te esqueças que são as pessoas que fazem um país e não as fronteiras que o moldam. O nosso país pode ser um pequeno retângulo, mas tem muito ainda para dar. "