17
Fev22
Elsa Filipe
Escrito por Eça de Queirós, "A aia" é um texto narrativo que pode ser considerado um conto de fadas, tendo no entanto caraterísticas muito próprias da escrita Queirosiana onde está implícita a crítica social. Publicado em 1902, com outras doze narrativas, é atualmente uma das leituras obrigatórias para o 9º ano de escolaridade. É, pela minha experiência com alunos desta faixa etária, um conto que ultrapassa o nível de compreensão da maioria dos alunos nesta faixa. Não porque seja muito difícil, mas porque a aioria dos jovens não lê ou lê pouco.
O conto começa com a morte de um rei, numa batalha em terras distantes e que, por via de sucessão direta, deixa o trono ao seu filho recém-nascido. No palácio, como era costume, uma aia amamenta e protege o príncipe, ao mesmo tempo que cuida do seu próprio filho. É assim normal, que os dois cresçam lado a lado, em zonas próximas do castelo. O tio da criança, irmão do rei falecido, chega com as suas tropas para matar o príncipe, ainda bebé. A coberto da noite e instalando o medo e a morte por onde passa, avança até ao palácio. Ali, havia ficado uma corte desprotegida, uma corte composta maioritariamente por mulheres, que vão assistindo à morte e à destruição que se vai aproximando.
No meio da barafunda, mas com uma determinação única, a aia troca os bebés de berço e em vez de raptarem o filho da rainha, os raptores acabam por levar o seu próprio bebé. Apesar do tio maldito ser morto, a verdade é que acabaria por ser morto também o bebé às mãos de quem pensava tratar-se do verdadeiro herdeiro.
A personagem principal deste conto é sem dúvida a Aia e a sua ação reativa que acaba por salvar o princípe. Contrariamente aos contos de fadas que acabaram por ser transformados e nos chegam com um final feliz (mesmo que na sua génese, esse final feliz não existisse), o conto de Eça chega-nos tal como no original com um final trágico em que a ama de leite se mata com um punhal, dentro da sala do tesouro real.
Neste conto, Eça dá a esta mulher, a esta Aia, a liberdade de escolher o destino do reino, mas com a consequência mais trágica para a sua vida. Uma escolha que teria sempre consequências negativas, com a perda do seu bem mais precioso, enquanto que à Rainha é dada a vitória de ter o reino salvo e o filho nos braços, sem ter qualquer poder de decisão sobre isso ou executar qualquer ação que a isso conduzisse. Eça retrata aqui uma sociedade que se submete ao poder, em que o povo sustenta, mas também dá a vida, pela classe mais alta, pelo rei e pela família real a quem obedecem como que a um poder divino.
Acima de todas as caraterísticas, é a lealdade da Aia que se destaca, enquanto a Rainha se mostra desprotegida e até fraca. A Aia apresenta uma solução, uma postura de guerreira. Da mesma forma que até ali tinha sido a Aia a cuidar do príncipe, é também sobre ela que cai a tarefa de proteger o futuro do reino, ou seja, é nas mãos do menos poderoso que recai a maior decisão. Quem já leu Eça, sabe que as suas histórias têm personagens ricas, elaboradas e que promovem no leitor diferentes sentimentos.