05
Set13
Maria do Rosário Pedreira
Naturalmente, porque publico muitos autores estreantes, também me interesso pelos que publica a concorrência, sobretudo se os críticos os referenciam como excepcionais. Já não sei quantas, mas eram muitas as estrelas com que os jornais classificavam a obra de estreia de Rodrigo Magalhães, com o estranho título de rima falsa Cinerama Peruana, um conjunto de três histórias que se cruzam, mas não vale a pena dizer exactamente onde, porque as arestas podem tocar-se, mas também se afastam por fricção. A aparente simplicidade da linguagem usada pelo autor é, de resto, contradita por uma complexidade que é certamente deliberada e desafiante quase sempre (quando não o é, o leitor perde qualquer coisa, e o que vale é que já ganhou o equivalente). Nestas três histórias, jogam-se os destinos de gente que mata por prazer: um aprendiz de alfaiate com manias de ensaísta, dois gémeos de sexos diferentes (ou não) e, no último conto, que é o mais substancial e dá nome ao livro, uma série de pistoleiros que tão depressa estão ao lado do mestre como lhe querem suceder na liderança do grupo. Bem escrito, sem dúvida, com um certo tom de Bolaño (houve quem falasse igualmente em Carver, eu não encontrei assim tantas semelhanças), numa passagem ou noutra, confesso, apeteceu-me desligar o complicómetro, mas acho que estes bandidos merecem atenção por parte dos leitores. Para quem disparou pela primeira vez, como Rodrigo Magalhães, o tiro (mais ao estômago do que ao coração) foi certeiro. Os vivos ficam à espera do próximo ataque.