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Jul21
Maria do Rosário Pedreira
Leio algures que existe um memorando de entendimento entre Portugal e Cabo Verde para propor o campo de concentração do Tarrafal, a que alguém chamou «o campo da morte lenta», a Património da UNESCO. Não só é uma forma de fazer com que não se esqueça, e assim não se repita, o horror, mas também um modo de convocar visitantes para o arquipélago sem ser apenas pelo clima e a paisagem. Conheço o Tarrafal, com as suas montanhas altas que parecem ter rostos desenhados na pedra, e com as suas praias de água transparente e coqueiros. Quando ali estive, da primeira vez que fui em trabalho à cidade da Praia (depois disso já fui mais três) levaram-me também a ver o Campo de Prisioneiros e, apesar de então estar bastante destruído e abandonado, deu para perceber as provações por que passaram os presos políticos que ali foram encerrados. Publiquei dois romances que evocam o Tarrafal: Que Importa a Fúria do Mar, de Ana Margarida de Carvalho, e O Diabo Foi Meu Padeiro, de Mário Lúcio Sousa. O primeiro insere na ficção um velho sobrevivente português, o outro faz-se homenagem a todos os que, na realidade, estiveram presos no campo em épocas distintas: portugueses, angolanos, guineenses e cabo-verdianos. Ambos os livros devem ser lidos para que não esqueçamos, enquanto o Tarrafal não se torna Património da Humanidade por direito próprio.