19/11/2012 · 1:02 AM

Meio dia e quatro. Depois do badalo atrasado no sino da igreja vazia, passamos a ouvir a conversa de um casal. Eles trocam palavras e ideias sobre eternidade, amor, vida, itinerários de ônibus, shows recentemente cancelados na cidade, interpretação de sonhos, felicidade e outros conceitos tão etéreos quanto a neblina. A praça voltou a ser bem vista pela população depois da reforma que a prefeitura realizou no lugar: os bancos estão intactos, as flores ainda não foram pisoteadas e nem as placas de trânsito atropeladas por gente bêbada ou drogada.

Os donos de comércio dos arredores estão felizes com a lucratividade das próprias atividades, algumas ilícitas. Os preços que eles praticam são em geral baixos, mas isso não abala a saúde de seus negócios, já que não é só de coxinhas, pastéis e sanduíches que eles vivem.

Dois mendigos passam por ali, assim como um carrinheiro, quatro catadores de latinhas e três pessoas que estão procurando crack para comprar. Uma criança de oito anos de idade está vendendo a pedra maldita em uma das esquinas, mas ainda não foi avistada pelos possíveis clientes.

A energia do ambiente é estranha, e mais emprega força sobre os transeuntes do que é gerada pela somatória das forças deles (eis um mistério do meio dia).

Os jovens do casal falam, pausam, pensam. Falam de novo. Mais falam e falam de novo que pausam e pensam.

Meio dia e onze. O tempo passa e foge para além de onde as almas alcançam. Sabe-se que estes minutos são preciosos como diamantes, como o casal, também como os mendigos, os catadores de latinhas, os comerciantes, os viciados em crack, a criança que está vendendo o produto, os motoristas de ônibus, seus colegas cobradores e os passageiros.

O que explica este cenário?

Prefiro responder esta pergunta com outras perguntas.

Marco, o Antonio.

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