
Súditos, contestem as eleições nacionais de 2022, elas são fraudadas pois não são votações em papel! Peguem suas armas e saíam às ruas em meu nome (Jair Bolsonaro), seu líder!
Isabella Marzolla
Se a posterioridade caminhar para o cenário previsto pelos institutos de pesquisa, o atual Presidente da República pode não conseguir se reeleger. Para onde, então, irão os bolsonaristas fiéis — cerca de 30% do eleitorado brasileiro, segundo o Datafolha— quando o governo Bolsonaro chegar ao fim? Como vão digerir a derrota (se aceitarem ela)?
Guardariam as bandeirinhas, as vuvuzelas, os alto-falantes, as camisetas da CBF, os lenços, as cangas, as toalhas e toda e qualquer outra quinquilharia verde-amarela nas gavetas? Trocariam fotos de perfil protagonizadas com o olho “nacionalista” auriverde chorando sobre um fundo preto, em sinal de luto? Tudo isso ficaria guardado literalmente e metaforicamente até que o líder messiânico do grupo retornasse ao mais alto escalão político do Brasil ou, antes dessa revolução estética nos perfis de “tios e tias do churrasco” haveria caos e revolta social nas ruas?
Como os fiéis apoiadores de Bolsonaro, que parecem viver uma espécie de jornada missionária contra a “nova ordem mundial esquerdista de espectro comunismo” e que pregam valores ultraconservadores, reagiriam frente a uma derrota nas urnas eletrônicas?
Esse grupo possivelmente defenderia o Presidente Bolsonaro sob qualquer circunstância e fanaticamente obedeceria a ordens como: “Súditos, contestem as eleições nacionais de 2022, elas são fraudadas pois não são votações em papel! Peguem suas armas e saíam às ruas em meu nome (Jair Bolsonaro), seu líder!”
Em uma democracia representativa – que milagrosamente ainda vigora no Brasil — é quase nula a chance de um candidato ser eleito de maneira unânime. A realidade é que os políticos são eleitos pelo voto da maioria, impelindo que sempre haverá uma minoria que, eventualmente, sairá frustrada das urnas eleitorais.
Dependendo do grupo, essa minoria perdedora pode ser uma dor de cabeça para o político eleito ou até uma ameaça constitucional.
Podemos estender a pergunta aos “minions” do mandatário da República: os bolsonaristas aceitariam a derrota nas urnas calados? Resguardariam suas angústias e raiva dentro de si até que essa mistura explodisse? Aceitariam a derrota nas urnas com o reconhecimento da democracia representativa? É difícil prever o futuro, especialmente da política brasileira, mas vale revisitar um passado recente para desenhar cenários.
Outro case que esboça a infantilidade política e a desvalorização de eleições presidenciais trata da má conduta durante a transição entre governos das últimas eleições norte-americanas – o país idolatrado por muitos brasileiros, em especial pela família Bolsonaro – em 2020. Naquelas eleições norte-americanas o número de eleitores que votaram no candidato e então Presidente, Donald Trump, eram uma grande parcela da população, 74 milhões, contra 81 milhões de votos destinados ao democrata e atual Presidente Joe Biden, o que torna ainda maior o desafio de governar uma nação tão desunida e polarizada.
Os apoiadores do republicano Trump não foram “bons perdedores” e – como tudo indicou, incitados pelo próprio Trump – invadiram o Capitólio, berço de uma das maiores democracias do planeta, ameaçando os Congressistas e reiterando falas do ex-Presidente, de que as eleições haviam sido fraudadas.
“Não dá para agradar a gregos e troianos”. Nas eleições presidenciais de 2014 do Brasil, o então candidato improfícuo no segundo turno, Aécio Neves (PSDB), pediu a recontagem dos votos porque a diferença entre ele e a Presidente eleita, Dilma Rousseff (PT), era mínima.
Antes das marcantes eleições de 2018, da qual o bolsonarismo foi o grande fenômeno, os eleitores já guardavam em suas entranhas conservadorismo, frustrações e ódio. E no ódio é sempre propício ao político explorar e apontar um culpado, no caso o PT e seus aliados. Bolsonaro apenas vocalizou na hora certa o ódio de muitos brasileiros. Como analisado pela irrepreensível Eliane Brum em sua coluna O homem mediano assume o poder, do dia 4 de janeiro de 2019.
Mas e se o Bolsonaro não vencer em 2022 (democraticamente falando, tá okay?), aonde seus aliados vão estocar essa raiva, onde ela vai parar? Vamos viver um clima de guerra civil? Como reagirão os brasileiros inconformados politicamente em 2022?
Publicado por Isabella Marzolla
É jornalista, escreve no blog Inconsciente Coletivo, hospedado na home do Estadão. Escreve semanalmente na Fina. Twitter: @IsaMarzolla Ver todos os posts de Isabella Marzolla