04

Set25

Maria do Rosário Pedreira

Uso o título de um dos livros de que mais gosto do russo Turgénev (lido há muito, confesso, tenho de o reler) neste blogue para falar de um romance que li recentemente chamado O Aniversário. O seu autor, Andrea Bajani, já me tinha sido aconselhado pela fotobiógrafa de Pessoa (e viúva de Tabucchi) Maria José de Lancastre, que até me emprestou outro título dele para eu ler no original. Mas este O Aniversário não conta, na verdade, a festa de anos de ninguém, mas o décimo aniverário de uma espécie de divórcio entre um filho e os seus pais. Não estrago o prazer do leitor ao contá-lo porque as primeiras páginas do romance, a sinopse  e a cinta explicam logo que um homem se despediu dos pais num certo domingo, como fazia todos os domingos, só que o fez pela última vez, embora nem o pai nem a mãe o soubessem. E, quando começa este divórcio, ficamos com a ideia de que o filho é talvez um pouco egoísta; mas, à medida que a leitura vai avançando e conhecemos melhor o poder do pai e a escolha da mãe de se submeter, de abdicar da vida a favor do marido (abrevio muito, mas não quero naturalmente abrir o jogo), não podemos senão concordar com a partida definitiva do filho. O escritor francês Emmanuel Carrère, a propósito da obra, fala de um "escândalo" que se traduz num "livro escandalosamente sereno" e essa é uma excelente descrição para este romance muito contido, prudente, discreto, quando poderia ser demasiado colorido ou trágico. Um autor que sabe fazer as coisas e a que apetece regressar.