09
Set13
Maria do Rosário Pedreira
Nas férias, fiz bastantes caminhadas a pé (dizem que tira o stress – e eu estava a precisar de me desembaraçar dele) e, numa delas, fui dar a uma feira do livro armada numa tenda em frente da praia da Ericeira – o que seria inescapável, dirão alguns. Pois foi aí que, por meros 2 Euros, comprei um livrinho de Dostoiévski chamado O Crocodilo, deliciosa leitura para duas horas a olhar o mar, porque o mestre russo sabe deleitar-nos como ninguém com qualquer meia dúzia de palavras. Um funcionário público (russo, claro) vai com a mulher e um amigo (o narrador) ver um crocodilo que está em exposição numa galeria muito badalada; e tanto faz para mostrar à sua belíssima e enojada esposa que o bicho é inofensivo que acaba por ser engolido vivo por ele. O problema é que o funcionário engolido é público, mas o crocodilo esfomeado é propriedade privada – e, ainda por cima, de um alemão, que não está disposto a perder a receita dos bilhetes para salvar o senhor presumido que, apesar do acidente, continua a falar do oco do monstro e já se alegra com o número de visitantes que a situação vai atrair e no quanto isso lhe vai render – um fanfarrão que fala demais, tem boca grande e desiste de ser salvo só para que os jornais tenham qualquer coisa para dele dizer…