Não tem certo ou errado, tem quem você é e no que acredita
pandemia de Covid-19, vacinação, comportamento social, ética, política brasileira, hipocrisia
Houve alguns momentos na História recente do Brasil que serviram para provar e distinguir qual tipo de pessoa somos Isabella Marzolla* A partir de maio o governo federal e os estados, através do PNI (Plano Nacional de Imunização) abriram a “temporada de vacinação” para pessoas com comorbidades. A lista de comorbidades é extensa e cheia de entrelinhas, que para muitos médicos e “espertinhos” significa que as regras e definições das doenças listadas estão sujeitas à livre interpretação. As regras do Ministério da Saúde – e de todos os outros ministérios do governo Bolsonaro – são flexíveis, quase elásticas, e displicentes. O governo Doria pediu a investigação de 100 médicos que mais emitiram laudos, exames e receitas médicas para a vacinação de pessoas com comorbidades pelo Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) na expectativa de encontrar fraudes, leia-se sacanagem, ou se preferir ser mais contundente, imoral. O indivíduo não consegue esperar sua vez “na fila da vacinação”. Recentemente, além de reportagens e pesquisas mostrando a falta de caratismo de alguns, escuto histórias de conhecidos de conhecidos que têm “amigos médicos” e que conseguiram o atestado e a vacina. Por coincidência, muitos desses que tomaram a vacina “fora da vez”, jovens saudáveis e da classe média alta paulistana, também foram os que não aguentaram fazer o isolamento social/quarentena e por vezes postavam fotos em “pequenas” festas caseiras, bares e restaurantes todos os finais de semana. Esse grupo costuma ter casas de verão ou inverno, no interior ou litoral, onde passaram grande parte da “quarentena” fazendo home office. Mesmo com “quarentena” flexível, gourmetizada e fake eles são os campeões em tuítes e textões explicando a necessidade de todos – o que provavelmente não diz respeito a eles mesmos – seguirem a quarentena e as medidas sanitárias contra a Covid-19 à risca. Também há postagens em forma de súplicas desesperadas sobre o quanto a pandemia afeta a saúde mental deles. Todo esse discurso está correto, cientificamente e moralmente falando, endorso e também sigo isso. O problema é a hipocrisia do “falar e não fazer”: esses discursos vazios e fisiológicos, assim como muitos dos políticos do Centrão. Quem somos nós para apontarmos o dedo? Somos ninguém. Viver uma “ditadura moralista” em diversas áreas é ruim pois empobrece a individualidade e a liberdade de expressão – com ressalvas a discursos de ódio e a disseminação de fake news, que não devem ter espaço no campo democrático. Mas no caso de assuntos que permeiam a saúde pública em uma pandemia, a vigilância pelas redes sociais e no cotidiano a pessoas que burlam as regras sanitárias pode ser uma ferramenta essencial no controle da transmissão da doença. Julgar esse grupo de pessoas, que não são poucas, como mau-caráter pode ser reducionista. Ter uma visão dualista de “bom versus ruim” no mundo atual é desesperador; “furou a quarentena? É um ser humano ruim”, “não gosta de usar máscara em lugares públicos? É malvado”, “frequenta manifestações em prol do governo e contra as medidas sanitárias? É com certeza uma pessoa ruim”, “posta nas redes sociais para as pessoas fazerem quarentena e vai para o bar? É ruim”. Difícil encarar a realidade e julgar os outros com essa régua. Não sabemos da vida e das dificuldades de cada um, às vezes são mal-informados, não entendem a gravidade do problema ou não suportam a vida crua e nua (desesperadora). Há claro, os egoístas e hipócritas de plantão, que na nossa sociedade são numerosos. Ninguém é santo, mas respeitar regras básicas de distanciamento social, uso de máscara corretamente, sair o menos possível, não aglomerar e esperar sua vez na fila da vacinação são atitudes que ajudam todos e fazem com que esse pesadelo pandêmico acabe mais rápido. Houve alguns momentos na História recente do Brasil que serviram para provar e distinguir qual tipo de pessoa somos, a partir das nossas tomadas de decisões e posturas. No segundo turno das eleições à Presidência da República em 2018 e em 2020/2021 no cumprimento ou não das regras de isolamento social em uma pandemia e agora no comportamento e paciência perante a fila de imunização, fica claro distinguir a índole de cada um e o comprometimento com o coletivo. Não tem certo ou errado, tem quem você é e no que acredita. *É jornalista e também colabora com o Blog Inconsciente Coletivo, hospedado no Estadão.
Texto originalmente publicado em Revista Fina