“A esquerda impôs uma nova ordem mundial que consiste em podar os prazeres mundanos” Isabella Marzolla No último Datafolha deste ano, 16% dos brasileiros não têm medo de ser infectados pelo Coronavírus, 23% já fez uso do tratamento precoce, 32% avaliam como ótimo ou bom o desempenho do Ministério da Saúde na compra de vacinas contra a Covid-19 e 8% não pretendem se vacinar. Do lado oposto dessa parcela minoritária negacionista – mas ainda significativamente assustadora – há uma maioria que anseia pela vacina e pelo fim da pandemia como um copo de água gelado depois de uma longa caminhada em um deserto escaldante. Para os negacionistas, em sua grande maioria apoiadores do Presidente Bolsonaro, a pandemia e todas as questões e aflições que a permeiam são um imenso mimimi. Afinal em suas cabeças nada está acontecendo e mesmo assim suas vidas tiveram de ser “suspensas” com lockdowns, restrições, uso obrigatório de máscara e a sensação de culpa após “rolezinhos”, graças aos comunistas (quem, indiferentemente de espectro político, acredita na pandemia e na ciência). Por mais que se force uma normalização precoce abrindo o comércio, restaurantes, bares e assistindo cada vez mais pessoas se aglomerarem pelas ruas sem máscara, a realidade é que a pandemia não está controlada e muito menos acabou. O Brasil tem uma média móvel de óbitos em torno de 2 mil por dia e pelo menos 20 Estados e o DF, além de 17 capitais, com taxas de ocupação em hospitais iguais ou superiores a 80%. A vida do negacionista não é fácil. Os que pegam o transporte público ao trabalho agora têm que fazer o percurso todo de máscara – mesmo com ela no queixo incomoda, “traz um ar de fragilidade e ofende a masculinidade”, na visão deles -, no trabalho permanecem com a máscara e os colegas agora se sentam/trabalham mais afastados uns dos outros, na hora do almoço cada funcionário come em uma mesa e não dá para conversar. Chegando em casa ao ligarem a TV, quase todos os grandes telejornais apresentam notícias tristes e críticas agressivas “e sem fundamento” ao seu Presidente e ao governo. Para eles, assistir, ler ou escutar o jornalismo da grande impressa – especialmente o da Globo – é consumir fake news e sofrer uma lavagem cerebral da esquerda. Os negacionistas não podem mais ir aos estádios de futebol e ver um jogo no meio do calor da torcida (sem máscara), ir a uma festa legalizada (porque eles podem facilmente frequentar as clandestinas), assistir um filme nos cinemas sem a frescura de reservar hora e passar por burocracias como a de medir a temperatura do corpo antes de entrar em um local fechado. “A esquerda impôs uma nova ordem mundial que consiste em podar os prazeres mundanos”, dizem incrédulos. O que os negacionistas não enxergam, dentre as milhares de obviedades científicas lógicas e a ignorância generalizada, é que os “não negacionistas” também sofrem com os impedimentos dos lazeres cotidianos. Nós também sentimos falta da vida sem máscara, da balada, das grandes festas, dos jogos de futebol e da possibilidade de se sentar na sarjeta da rua para beber e fumar com um amigo sem a preocupação de se contagiar por vírus com uma taxa de transmissão altíssima, e em um cenário de lentidão na vacinação. Negacionistas, olhem para o diferente com amor. Isabella Marzolla É jornalista e também colabora com o blog Inconsciente Coletivo. Escreve Semanalmente. Publicado por Isabella Marzolla É jornalista, escreve no blog Inconsciente Coletivo, hospedado na home do Estadão. Escreve semanalmente na Fina. Twitter: @IsaMarzolla Ver todos os posts de Isabella Marzolla