Se Hannah Arendt morasse no Brasil de 2021 escreveria uma tese “2.0, à brasileira” sobre a trivialização da violência Isabella Marzolla*, colaboração para Fina A primeira semana de maio foi uma das mais difíceis do ano. Perdemos na noite de terça-feira (04/05) um grande personagem da cultura popularbrasileira, o humorista e ator Paulo Gustavo, junto com outros 3.025 brasileiros (segundo balanço do consórcio de veículos de imprensa), por Covid-19. Na manhã daquela terça já havíamos acordado com a notícia de um massacre em uma pré-escola no Sul do País, em Santa Catarina. Dois dias depois, na quinta-feira (06/05), a angústia veio através da operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro (segundo levantamento do jornal Extra), que deixou, até o momento, 28 mortos na comunidade do Jacarezinho. E para fechar a semana, na sexta-feira (07/05) fomos abastecidos pela dose diária de tragédia nacional com 2.270 óbitos por coronavírus. Tudo isso em conjunto com a incerteza da continuidade e ritmo da vacinação, o temor do surgimento de novas cepas mais agressivas do vírus no Brasil e a desconfiança dos resultados da CPI da pandemia. Impossível saber como está o particular de cada cidadão brasileiro, mas o sentimento coletivo dissipado pelos ares (e neste caso não me refiro ao vírus) e pelas redes sociais é, em grande parte, o de luto. Luto pelas vidas perdidas, luto pela vida que abandonamos ou suspendemos por tempo indeterminado, luto pelos planos e horizontes que almejávamos e que a pandemia nos tirou. Sentimos falta de ver a população feliz, dentro dos parâmetros de felicidade do brasileiro. Inventaram um novo termo para definir o estado emocional dos indivíduos apáticos na pandemia; languishing, que em português significa definhamento, mas acredito que a palavra “brasileiro” poderia ter esse sentido também. O País inteiro parece definhar graças à má gestão do governo nesta crise sanitária e que, portanto, gera um trauma melancólico intenso e niilista na população. De acordo com o psicanalista, mestre e doutor em filosofia e autor de O Trauma na Pandemia do Coronavírus (Civilização Brasileira, 2020), Joel Birman, “O niilismo é uma forma de manifestação subjetiva e cultural da melancolia. A grande marca da melancolia é você perder a perspectiva de futuro. Você está em um quadro de dissolução em que não tem mais esperança de que o futuro seja possível no País”. Na semana passada, um vídeo com crianças em uma creche pública de uma comunidade do Rio de Janeiro circulou pela web. Nele, elas apareciam deitadas no chão se protegendo de um intenso tiroteio entre facção e policiais na região, enquanto buscavam seguir o distanciamento social e usavam máscaras. O vídeo foi compartilhado milhões de vezes. São tantas as publicações com o mesmo teor e conteúdo que isso virou algo normal, “carne de vaca”. O desprezo com a vida é pueril no Brasil, é a essência da banalização do mal de que falava Hannah Arendt. Aliás, se Hannah Arendt morasse no Brasil de 2021 escreveria uma tese “2.0, à brasileira” sobre a trivialização da violência. Nas palavras de Gregório Duvivier estamos em um estado “pós-puto” e que graças a isso não há ânimo para manifestações barulhentas e organizadas contra a o governo atual na pandemia. Na verdade, não há ânimo para nada. Qual o sentido de trabalhar e produzir se não sabemos de fato quando a pandemia acaba? Qual o sentido de viver sem a perspectivas da possibilidade de um futuro “normal”? É uma falta de tesão generalizada em persistir, em sobreviver, em encarar a vida. Por enquanto ficamos com isso, esse âmago de tristeza e revolta, para introspectivamente refletir e deixar algo florescer. Gostaria de terminar a coluna em bom tom, mas por vezes, é revigorante sucumbir à amargura desoladora que um período como esse pode evocar. É jornalista e também colabora com o blog Inconsciente Coletivo, hospedado na home do Estadão. *Artigos de opinião não expressam, necessariamente, a visão da revista e seus autores são os únicos responsáveis pelo emitido. Publicado por Isabella Marzolla É jornalista, escreve no blog Inconsciente Coletivo, hospedado na home do Estadão. Escreve semanalmente na Fina. Twitter: @IsaMarzolla Ver todos os posts de Isabella Marzolla