O presente é um trágico passado
crítica social, pandemia, meio ambiente, ciência, política brasileira
Naquele tempo, a enxurrada de tragédias parecia mentira. Mas a mentira também já tinha dado um jeito de se tornar verdade Gustavo Nagib A vida cotidiana parecia atropelada por fatos inesperados. O carnaval mal tinha terminado quando se iniciou a última grande pandemia. Parecia que era para valer: ninguém escaparia. A multidão, que geralmente aparece nas fotografias como formiguinhas caminhando em direções pré-determinadas, estava desgovernada. Não existia mais rumo, os caminhos se embolavam em um emaranhado de curvas muito perigosas e os acidentes eram frequentes. O jornal da manhã sempre noticiava os corpos encontrados ribanceira abaixo, rolados do penhasco da vida. As atividades habituais estavam em constante paralisia. As milícias agiam em conluio com a máquina pública. Pessoas morriam asfixiadas por um novo vírus, altamente transmissível. Grandes farmacêuticas aproveitavam a onda de mortes para aumentar as vendas de medicamentos ineficazes, contando com o apoio governamental. As universidades públicas eram alvos de ameaças e o saber científico, ridicularizado por defensores da Terra plana. Até mesmo os últimos resquícios de vegetação nativa ardiam em chamas e a fuligem das queimadas fez a maior metrópole do país escurecer às quatro da tarde. Não se sentia mais o vento. As janelas eram estruturas cada vez mais incomuns, pois o ar-condicionado devia estar programado para funcionar em tempo integral. As populações mal conheciam os rios que cruzavam as cidades. Muitos deles tamponados para a circulação de automóveis ou utilizados para o escoamento do esgoto sem tratamento. Também tinha aqueles que, nos raros momentos de folga, aproveitavam os dias de sol para banhar-se nas praias entulhadas de plástico, estendendo as suas cangas e abrindo o guarda-sol junto ao fio de esgoto que corria sobre a areia. Atentavam contra os movimentos sociais, baleavam os pobres, promoviam chacinas, boicotavam a poesia, o amor, o conhecimento e a alegria. Continuava sendo muito perigoso ser mulher, negro, gay, ateu, acadêmico, artista, ambientalista… Naquele tempo, a enxurrada de tragédias parecia mentira. Mas a mentira também já tinha dado um jeito de se tornar verdade. *Geógrafo, Doutor pela Universidade de São Paulo (USP) e poeta. Autor das obras “Amar: verbo indefinido” (Mini, 2015) e “Agricultura Urbana como Ativismo na Cidade de São Paulo” (Annablume, 2018). Escreve mensalmente na Fina.
Texto originalmente publicado em Revista Fina