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Trabalho mais poético do escritor e diplomata franco-lituano, o romance é ambientado às vésperas e durante a Segunda Guerra Mundial

Matheus Lopes Quirino

É assustadoramente engraçado pensar que, de tudo que nos resta, a memória é o único bem, trunfo imaterial, que levaremos conosco até a hora da morte. A memória não morre, ela permanece. Desencarna do corpo e, aos outros, apodera-se por muito tempo de outros corpos, mentes – e almas. A memória atravessa o tempo e quebra todas as regras. Ela é irreversível, se conservada. Quando esquecida, deixa de ser memória e diminui para reminiscência.

O ato de lembrar é o combustível para a centelha evoluir para a velha chama, apagada com a morte, que pode ressurgir como uma fênix, ou, como no poema Tarde de Maio de Drummond, como fictícia primavera. Uma boa memória (se existir memória ruim, claro) volve a ponto de converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém. E é com os versos de Drummond na cabeça que, a primeira vista, embarcamos nas praias da Normandia, famosa locação do Dia D, o desembarque dos Aliados pelas praias francesas. Na primeira página do livro As Pipas, Romain Gary deixa claro que esta história é ode à memória – dedica-lhe, sobretudo, o trabalho.

Último livro do romancista, diplomata e herói de guerra franco-lituano Romain Gary, As Pipas também é seu escrito mais poético. Ainda que o autor tenha trazido denúncia social em um trabalho fino como em A Vida Pela Frente, com requintes filosóficos que abordavam a condição do menino estrangeiro e sua relação com a cafetina Madame Rosa, sobressaiu-se dali um Gary que era Émile Ajar, seu pseudônimo.

Ao centralizar a memória como matéria principal de As Pipas, Gary confere ao jovem Ludo um poder extraordinário: a supermemória. Ludo, proeminente em matemática e memorização, ainda criança encontra a jovem Lila num bosque perto de casa. Do encontro inicial, em que ele se apaixona pela moça, o menino passa os próximos quatro anos voltando à clareira da floresta com sua cesta de morangos e sorvendo cada segundo do último (e até então único) encontro.

Ludo mora com seu tutor, o velho tio Ambroise Fleury, com quem dividirá o protagonismo nessa trama da memória. Carteiro rural aposentado, o velho Fleury é um artesão de pipas, famoso em Cléry, cidade onde vivem. Com espírito infante e olhar pueril, Ambroise é um sábio pacifista que forja imponentes pipas, conhecidas por toda França por suas excentricidades. De François Rabelais, autor de Gargântua e Pantagruel ao general De Gaulle, as pipas são consideradas patrimônio da cidade e Fleury seu embaixador.

O amor incondicional do tio, com toda fé e esperança depositadas no ensino público obrigatório e na arte, Ludo cresce rodeado por pipas e outras crianças, num mundo lúdico e bem aparatado de imaginação. Com fama de louco, o tio do menino é também alvo de piadas entre alguns da cidade, até mesmo visitantes, que o apreciam pelo trabalho com as pipas. Sem dar ouvidos aos burburinhos, Ambroise Fleury se concentra em esculpir pipas como um ourives, a fim de adornar com raras belezas sob medida o céu da Normandia.

Os anos passam, Ludo se reencontra com Lila e com a família Bronicki. Aristocratas poloneses, quem têm pelo jovem camponês normando um afeto cordial, o menino frequenta a casa de veraneio da família e estabelece laços com Tad, irmão de Lila, ávido conhecedor da geografia, e Bruno, um menino doce e imaginativo, que é pianista. Junto deles também está Hans, o primo prussiano de Lila que, como Ludo, é apaixonado pela garota. O elo entre os dois, por muitos anos, será o coração da jovem que, em tempos de guerra, terá que se despedaçar para sobreviver.

Com o iminente conflito, os Bronicki caem em desgraça e passam por maus bocados. Com cerco fechado no famoso Corredor Polonês, o destino à família é incerto e o menino Ludo fica obcecado com pistas que levem-no até Lila. Jovem e “meio biruta”, ele é dispensado do exército, pois, como dizem de Ambroise Fleury: “A loucura é hereditária”. Sobra-lhe se engajar na resistência e, com a França ocupada, tornar-se um bom colaborador contra o regime nazista.

Quando a distância pesa entre um casal de jovens apaixonados, a única solução é se manter esperançoso e jamais resignar. O jovem Ludo, sem notícias de Lila, segue com a memória lívida em pensamentos direcionados à amada, “Comecei a despertar para a ideia de que não bastava amar, pois era preciso aprender a amar, e lembrei do conselho de meu tio Ambroise de ‘segurar firme a ponta da linha para impedir que a pipa se perca na busca do céu azul’”, lembra o menino.

Símbolo de liberdade, as pipas são governadas pelo vento e são frágeis objetos que causam muito impacto em quem as percebe. Especialmente as de Ambroise, de rara beleza, embora bagunçadas pelos ventos do autoritarismo, o velho artesão e seu sobrinho (enquanto puderam) não deixaram de empiná-las, tão alto quanto conseguissem, para expor a resistência francesa e um sopro de liberdade – que incomodou a Gestapo. Primeiro, as pipas foram proibidas a voar a 30 metros, depois, 15, dali a pouco, como reclamava Fleury, era perigoso que rastejassem.

Outro sagaz combatente, a seu modo, é o chef Marcellin Duprat, que pilota a cozinha do Clos Joli, um restaurante que existe até hoje, a bem da verdade, não propriamente o do romance de Gary. O Clos Joli e seu dono dariam uma resenha à parte. Caricato e teatral, Duprat é também protagonista de As pipas, embora seja o fogão da cozinha clássica francesa a arma que usa para se defender. Ele dá o melhor de si para servir os oficiais da SS, à contragosto da clientela, sobretudo, para saudar uma gloriosa e impávida França em sabores e texturas.

Duprat fala da glória de uma majestosa cozinha e encanta os oficiais do alto escalão da Gestapo, chega a ser criticado pelos resistentes, mas seu restaurante vira uma espécie de território estratégico para captar informações secretas dos alemães e ajudar os Aliados. Quem também, a seu modo, combaterá os espectros do fascismo, infiltrada, é a cafetina Madame Julie, que se torna uma condessa de dia para noite.

Ao redor de Ludo, uma rede de verdadeiros cultores da memória se forma. Cada qual engajado em sua arte, seja na belle cuisine, na luta engajada, na fabricação de pipas, na organização de um bordel, todos olham para o mesmo céu e lembram, com pesar e nostalgia, dos tempos gloriosos de uma França sã, sob as pipas de Fleury, reluzindo o melhor espírito francês e resistindo contra os ventos mais violentos possíveis.

As pipas

Romain Gary

Trad. Julia da Rosa Simões

336 páginas

Editora Todavia

Ano 2021