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Jan21

Maria do Rosário Pedreira

Há talvez um ano e meio ou dois, o jornalista Valdemar Cruz escreveu um interessantíssimo artigo no Expresso sobre o facto de as pessoas terem deixado de escrever à mão e reproduziu alguns cadernos e blocos de escritores que devem ser os últimos que poderemos ver. Na verdade, os teclados substituíram as canetas há já muito tempo; e até as crianças, que deviam treinar e aperfeiçoar a respectiva caligrafia (no meu tempo de escola primária contava para a nota final ter uma caligrafia clara e bonita), como lhes dão telemóveis desde tenra idade, estão mais habituadas às teclas do que às canetas. Mas ainda há quem estime estes objectos raros, sobretudo as canetas de tinta permanente, e quem até sinta pelas que possui verdadeira adoração. Miguel Esteves Cardoso escreveu na quarta-feira passada no Público uma bela crónica dedicada às suas canetas (umas 50!), elogiando sobretudo a preferida, que até foi barata e escreve como nenhuma outra. A circunstância de sonhar de vez em quando com uns revolucionários que vão a sua casa confiscar-lhe as canetas de que ele não precisa e só o deixam ficar com uma ou duas (no máximo, três) é deliciosa, mas vale a  pena ler de fio a pavio esse texto que é dos melhores que tem escrito nos últimos tempos. Eu penso melhor com caneta na mão, embora, claro, já não dispense um tecladozinho...