04

Abr24

Maria do Rosário Pedreira

A minha avó costumava dizer que «burro velho não aprende línguas», mas não lhe dou razão. Já aqui vos falei um dia destes de um livro incrível de uma escritora que começou a publicar à beira dos oitenta (Escovar a Gata é o seu título) e, no ano passado, não deixei de me referir também a Aurora Venturini, uma senhora de idade que tentou toda a vida publicar os seus escritos e acabou por ganhar um prémio importante na velhice com o maravilhoso (e sórdido) As Primas, tendo, acabadinho de sair por cá, um outro romance que ainda não li (A Família Caserta). Bem sei que escrever e publicar pode ser o corolário de uma aprendizagem anterior («aprender línguas» de raiz pressupõe memória, que é o que mais nos falta quando vamos para velhos); mas, se tomarmos «línguas» como simples metáfora, posso dizer-vos que este ano já me fartei de aprender com quem sabe dois «idiomas» que desconhecia, mesmo escrevendo letras de canções há tanto tempo. Não é que fui convidada para fazer a Marcha de Alfama (uma delas) que vai ser cantada e dançada no desfile do Santo António e que, logo a seguir, sou chamada a produzir um texto para Cante Alentejano no âmbito de um projecto de valorização e modernização desta arte que é Património Imaterial da Humanidade? E o melhor é o que vou aprendendo pelo caminho. Velha, mas não burra.